A Weekly Shonen Jump é conhecida por ser impiedosa, cancelando mais de 80% de suas séries. Contudo, todo leitor tem aquele mangá que acabou descontinuado, mas do qual, na verdade, gostava. Nesta matéria, não iremos abordar os mangás cancelados mais populares ou aqueles que tiveram maior repercussão: Eu (Leonardo Nicolin), Felipe Rib e Lucca, nos reunimos para comentar as nossas séries preferidas que foram canceladas.
A lista poderia ser muito mais extensa, mas decidimos seguir duas regras: a primeira é que a série deveria ter até 5 volumes; a segunda é que a leitura precisaria ter um valor sentimental para nós, mesmo tendo sido cancelada. Mais adiante, planejo também escrever uma matéria sobre as séries canceladas mais amadas pelo público. Vamos ao TOP 8, sem uma ordem específica:
MAMA YUYU – Yoshihiko Hayashi
Nada melhor do que começar comentando justamente sobre uma das séries canceladas mais amadas dos últimos anos: MamaYuyu. O mangá, escrito e desenhado pelo novato Yoshihiko Hayashi, narra a história de uma era na qual o herói e o rei demônio vivem em paz, em uma relação quase familiar; contudo, devido à chegada de um herói de outra dimensão, essa realidade acaba mudando.
Com elementos de Isekai, a premissa de MamaYuyu era bastante comum, contudo, o que realmente chamou a atenção no mangá foi a sua quadrinização: com um enorme talento e senso estético, Hayashi entregou páginas simplesmente espetaculares, que me levaram a interromper a leitura múltiplas vezes apenas para admirar sua criatividade. Não se tratava do detalhamento da arte, mas, verdadeiramente, da quadrinização.
Contudo, embora MamaYuyu fosse um grande deleite visual, a obra cometeu muitos erros em termos de desenvolvimento de história: a personagem Mama, muito querida pelos leitores, simplesmente desaparece após o terceiro capítulo. Os novos personagens, mesmo sendo bastante carismáticos, não conseguiram compensar essa ausência nem realçar o suficiente o carisma do protagonista. Além disso, a narrativa, sem um rumo definido, mudava de direção e de gênero continuamente.
MamaYuyu acabou sendo uma obra genial em termos de quadrinização, a melhor entre os cancelados dos últimos dez anos, mas provou que apenas a narrativa visual não é o suficiente para garantir o sucesso de um mangá. É preciso apresentar o pacote completo. Mas mesmo tendo um pacote incompleto, ainda retorno as suas páginas somente para ver essa obra de arte criada pelo promissor Yoshihiko Hayashi.
Escritor: Leonardo Nicolin
Koisome Momiji – Sakamoto Tsugirou e Miura Tadahiro
O ano é 2012. Uma nova comédia romântica é enorme sucesso na Jump e parece guiar o gênero para uma nova era. Estamos falando nesse trecho de Nisekoi, o rival da obra abordada aqui, Koisome Momiji.
Katsuragi Shouta é um jovem sem sucesso amoroso, mas certo dia uma bela garota pede para que ele tire uma foto dela em frente à ilha de Enoshima, paisagem local. Esse encontro começa a relação dele com Shinomiya Sana, jovem atriz de enorme potencial que está para gravar um drama ali na cidade de Kamakura.
Sana, sem experiências amorosas, então propõe a ele um namoro de treinamento. Mais rivais aparecem com o tempo nessa romcom clássica.
O maior atrativo de Koisome Momiji é o quanto ele parece acertar um meio ponto entre um drama romântico e uma visual novel dos anos 2000. O foco no cenário e caracterização da cidade cria um clima romântico palpável, com cenas usando locais reais, forte uso de iluminação e o lindo traço de Miura para ressaltar a natureza das heroínas, todas muito carismáticas.
O mangá porém travou difícil disputa pelos leitores, que preferiam Nisekoi, que não tinha fanservice e possuia um tom mais moderno e de um moe “mais puro”. Koisome Momiji é o sucessor natural de obras como Ichigo 100% e faz isso muito bem, mas não casou com sua era.
Miura não desistiu e quatro anos mais tarde conseguiu um hit com Yuuragi-sou no Yuuna-san, mas aquele outono em Kamakura é a juventude que nunca esquecerei.
Escritor: Lucca
Green Green Greens – Kento Terasaka
Um mangá à frente do seu tempo, do seu público e de sua revista, Green Green Greens começou já na dificuldade máxima, com um tema de golfe com o qual a maioria do público jovem não se importa nem iria começar a ler.
O primeiro capítulo de uma história deve sempre nos mostrar quem o protagonista é, seja pelas suas ações, falas ou objetivos. Haku Yaesaki é facilmente explicado pelas críticas feitas por sua colega Nadeshiko Oga; ela odeia Yaesaki por nunca falar sobre si mesmo, sempre colocar os outros em um pedestal e focar no sucesso e no dinheiro que essas pessoas têm. O lutador de boxe famoso? Cada soco dele são tantos reais gastos. Jogador de beisebol? Cada arremesso, mais 400 mil na conta.
Yaesaki é triste; ele não tem nada na sua vida, ele tem é a vida dos outros. Essa falta de identidade acaba se tornando a identidade dele na obra e, felizmente, a Oga, logo no início, já o critica por isso: “Você nem tenta entender o motivo de eles serem incríveis, você só está com inveja da proeza deles.”
Resta ao protagonista ir para casa e pensar, e entender que sua colega estava certa: ele apenas fala dos outros, nunca de si mesmo. Seus sonhos não existem; seus objetivos, nulos; sua vida, uma folha branca. Mas Yaesaki não quer desistir; ele quer encontrar um motivo para se sentir orgulhoso de si mesmo.
É impossível não fazer um paralelo do capítulo 22 com o cancelamento do mangá: após perder a competição, Oga perde toda a sua base; vencer era tudo para poder ir para os Estados Unidos e ser uma atleta profissional. Mas, com o braço machucado, tudo o que sobrou foi pensar sobre todos os erros que ela cometeu. Cabe a Yaesaki concordar: nenhum deles tem a experiência necessária, apenas o arrependimento de perder.
GGG, para mim, sem dúvida é o melhor cancelado já publicado na revista, não apenas pelo protagonista, mas também pela emoção colocada pelo autor. Às vezes, você quer ser alguém que inspira os outros, mas não está na hora certa. Que venha a hora do Terasaka.
Escritor: FelRib
Shaka no Musuko – Akiyama George
Com apenas 19 capítulos publicados no ano de 1981, Shaka no Musuko é um dos cancelados mais infames da história da Weekly Shonen Jump.
Seu autor, Akiyama George, já era famoso pelos seus mangás esotéricos e com temas sérios ou grotescos. Quando estava na Weekly Shonen Magazine, sua obra Asura já havia sido polêmica e causado boicotes por retratar atos como o canibalismo. Assim, a Jump já sabia o que o autor era capaz. Shaka no Musuko conta a história de uma vila no interior japonês e de um casal de adolescentes, o jovem Tomeo e sua namorada Seiko. Porém ela precisará se mudar para ajudar com as dívidas de seu pai.
Eis que surge a figura de um homem chamado apenas de “Filho de Shaka”. Vestindo apenas uma toga branca, essa estranha figura resolve os problemas dessa vila distribuindo dinheiro sem pedir nada em troca. Aos poucos, os moradores começam a adorar o homem, que mora recluso numa mansão com mulheres. Ao mesmo tempo uma epidemia mortal começa a se espalhar por essa vila e Tomeo desconfia dos planos do Filho de Shaka, que parece ter tudo sob seu controle…
É um thriller de mistério e terror. A atmosfera é tensa e a sensação é de que o Filho de Shaka é um vilão manipulador capaz de tudo, mas com uma origem impossível de se imaginar. Até hoje alguns leitores dedicados da Jump citam esse antagonista como um dos mais interessantes da história da revista, citando até que ele possa ser tido possível influência para personagens como Johan (Monster) e Amigo (20th Century Boys) pelo contraste entre suas atitudes pacíficas e natureza manipulativa.
Um fato é: apesar de sua narrativa esquisita causar o cancelamento do mangá com apenas 19 capítulos, esse mesmo aspecto fez Shaka no Musuko ficar marcado como um cult hit.
Escritor: Lucca
Shinmai Fukei Kiruko-san – Masahiro Hirakata
Entre 2008 e 2011, eu acompanhava a Weekly Shonen Jump casualmente, principalmente por meio de fóruns e sites – com exceção do Gekkou Gear, em português, não havia muitas análises da TOC, e por isso eu me guiava bastante pelo senso comum. Minha relação com a TOC passou de casual a séria a partir de 2012, com o lançamento de Ansatsu Kyoushitsu e sua disputa pelas primeiras colocações com One Piece (na época, acreditava-se que a TOC era o resultado direto da votação). Sim, eu acompanhava algumas séries canceladas, mas como eu ainda não escrevia sobre a revista, conseguia até manter certo distanciamento emocional.
Nas últimas edições de 2012, passei por outra evolução, deixando de ser apenas um entusiasta da TOC para me tornar escritor: iniciei justamente no ciclo de lançamentos de Hungry Joker, Shinmai Fukei Kiruko-san e Shokugeki no Souma. Esse ciclo chamou minha atenção por apresentar um mangá adorado pelo Ocidente (Hungry Joker), um sucesso comercial (Shokugeki no Souma) e uma obra estimada por um nicho japonês, Shinmai Fukei Kiruko-san, uma comédia sobre uma policial bem maluquinha.
Kiruko era uma personagem simplesmente hilária, que usava sua força e sua intensidade para resolver suas missões – o que era divertidíssimo -. Contudo, fui pego de surpresa ao perceber que, embora eu adorasse a comédia da série e houvesse algumas fanarts dela nos fóruns japoneses, o seu alcance junto ao público geral acabou sendo muito baixo. Kiruko-san não convenceu a maioria dos leitores da revista e acabou sendo logo cancelado.
Juntamente com Hungry Joker, Shinmai Fukei Kiruko-san foi minha primeira lição como escritor sobre como analisar a Weekly Shonen Jump, bem como a minha primeira decepção com as preferências do público japonês. Pouco a pouco, fui afastando o meu lado emotivo e aprendendo a compreender os japoneses, passando a enxergar sempre os motivos pelos quais uma série era cancelada, mesmo sem eu gostar da decisão. Shinmai Fukei Kiruko-san me ensinou uma grande lição.
Escritor: Leonardo Nicolin
Noah’s Notes – Ikezawa Haruto
Dizem lendas, que um autor tem apenas três chances para conquistar um hit na Jump. Após esbarrar com Kurogane (68 caps) e Mononofu (43 caps), Ikezawa Haruto veio para sua terceira e última rebatida. Deu certo? Não.
Noah’s Notes é sobre o encontro de Mirai, uma estudante desinteressada em história, e o super professor de arqueologia Noah Umberbach. Após encontrar um fóssil “do futuro” e mesmo assim não criar interesse por história, Noah decide mostrar à garota o incrível do passado. Eis a grande revelação de que o mundo está em um loop temporal, com suas interações passadas existindo no subsolo e o fim do mundo, repetindo eventos, se aproxima em 4 anos. Mirai decide ajudar Noah a resolver o enigma, viajando o mundo junto dele em busca de pistas em ruínas e cenários fantásticos.
O tom é similar à séries como Indiana Jones e Código Da Vinci. Aventura, ação e ficção histórica. Algo único para a Jump e a paixão por mistério, mundo e, principalmente, pela história exalam da obra. Ikezawa sempre extrai o máximo de seus temas. Mas o autor acelerou demais. A cada novo mangá, introduções eram puladas mais rápido e o plot não parava. Ao mesmo tempo que esse ritmo o permitia chegar nos seus melhores pontos, deixava o leitor casual atrás.
Outro bom mangá foi o apocalipse da história de Ikezawa na Jump. Final triste? Provavelmente, não! Existe um rumor forte entre os japoneses que 2.5 jigen no Ririsa, um dos maiores hits da Jump+, é dele, com um pseudônimo. Evidências são muitas, mas não posso lhes dar certeza.
Prefiro acreditar no novo loop, o que deu certo. Porque ser cancelado faz parte, aprender com a história é reescrever um novo futuro.
Escritor: Lucca
Watashi no Kaeru-sama – Yuuki Kawashima
Enquanto eu produzia a retrospectiva de 1997 da Weekly Shonen Jump, acabei me deparando com uma obra que viria a se tornar uma das minhas queridinhas entre as descontinuadas: Watashi no Kaeru-sama, um mangá sobre a jornada de um sapo robótico junto aos seus amigos humanos.
O que mais me chamou a atenção na leitura desse diamante bruto perdido no passado da revista foi justamente como o autor conseguia transmitir a emoção humana por meio desse sapinho robótico. Através de cenários bem construídos e de uma trajetória que mesclava comédia e ação, ele foi capaz de trazer uma verdadeira sensação de paz de espírito. Sim, o ritmo (pacing) da série era, por muitas vezes, complicado, principalmente após o autor provavelmente receber a notícia do cancelamento; contudo, mesmo assim, consegui notar algo de muito especial em Watashi no Kaeru-sama.
A obra nunca alcançou tração no Ocidente, sendo desconhecida por quase todos por aqui. Entretanto, quem lia a Weekly Shonen Jump em 1997 lembra-se desse mangá, pois, em pequenos fóruns de fanáticos pela revista, o cancelamento de Watashi no Kaeru-sama ainda é comentado como uma injustiça. O autor desapareceu após o encerramento da obra, tornando este o seu único lançamento até hoje.
Watashi no Kaeru-sama, se você compreende o idioma japonês, é uma leitura que eu recomendo bastante, pois, mesmo não sendo perfeita, é mágica.
Escritor: Leonardo Nicolin
Kaedegami – Harukawa Jun
Com um hype por oneshots como Kohitsuji Tora wo Nasu, Harukawa Jun é uma autora nova que preza por histórias com personagens com moralidade mais cinza que o padrão da Jump e aventuras em cenários asiáticos.
Kaedegami, sua primeira série, não foge do que se esperava da novata. A história é sobre o órfão Kou e sua amizade com a entidade mística Chiyou, uma deusa da guerra que perdeu a maior parte de seu poder.
Após um ataque de um monstro, Kou descobre que Chiyou não possui um corpo, com suas partes espalhadas mundo afora. Com novas habilidades graças à conexão com Chiyou, o jovem recupera o rosto dela e juntos partem para a jornada em busca das demais partes, nessa fantasia baseada na China antiga.
O elementos narrativo mais interessante é como é abordada a relação da dupla; há um quê de co-dependência, que colocam um ao outro como o mais importante do mundo. É algo que uma história normal criticaria, mas Kaedegami abraça seus protagonistas desajustados.
Porém, ação não bateu com os leitores, com sequências que não fluem e de pouco impacto, assim a Jump decidiu encerrar o mangá com 17 capítulos. Mas Harukawa mostrou-se firme às suas idéias e teve um dos finais mais graciosos de um cancelado. Talvez mais polida ela possa alcançar um sucesso futuro.
Escritor: Lucca








