Reza a lenda de que autores possuem apenas TRÊS chances, no máximo, para conseguir um sucesso na Weekly Shonen Jump. Com três strikes, estão fora. Os editores não confirmam a história como uma regra interna da revista, mas sim como algo óbvio: se alguém já teve tantas chances e não se firmou, é melhor eles focarem em autores não testados e com potencial também. Pode soar brutal, mas é como é.
Poucos mangaka sequer ganham as três oportunidades. Os editores dão essas chances se enxergam algo nos trabalhos cancelados. Não é raro de ver nomes famosos da indústria que tiveram grandes hits na sua segunda tentativa, como Yoshihiro Togashi e Tite Kubo.
O retorno de Kawaguchi Yuki, autor de Red Hood e Tomoshibi no Otr, com um oneshot que pode vir a se tornar uma nova série, e a terceira tentativa em andamento de Kento Terasaka, publicando Hal Formula na Weekly Shonen Jump, trouxeram o papo das três tentativas de volta.
Porém são poucos aqueles que conseguiram o sucesso na terceira rebatida, assim contrariando o destino. Vamos listá-los aqui para ver como foram suas trajetórias e o que novos autores podem aprender com eles:
KOUJI KOSEKI

Inspirado pelo seu amor ao desenho, Kouji Koseki entrou na indústria de mangá como todos: enviando oneshots para editoras. Com sucesso, o jovem foi o mais bem avaliado do prestigiado Prêmio Tezuka de 1978 com um oneshot de judô chamado de Aa Ichirou. Como o Tezuka é a competição mais importantes para novatos na Shueisha, a Weekly Shonen Jump logo trabalhou para transformar Aa Ichirou numa série, lançada em 1980.
O mangá era uma spokon clássica de clube, focando no trabalho duro e treinamentos dos jovens judoka. Começou bem e chegou até a ganhar as primeiras páginas coloridas da revista no vigésimo primeiro capítulo. Porém nas semanas posteriores os leitores foram enjoando da obra, que foi virando presença regular na parte inferior da TOC até o cancelamento no capítulo 39.
Koseki teve sua segunda tentativa em 1982. Novamente com uma spokon: Scrum, com o rugby de tema dessa vez. O público porém não teve interesse na série, talvez muito pela falta de popularidade desse esporte no Japão. Cancelado em apenas 11 capítulos, a situação ficava mais complicada.

O autor não desistiu nem da revista e nem do spokon. Sua terceira tentativa foi Kenritsu Umisora Koukou Yakkyuu Bun Yamashita Tarou-kun, um mangá de baseball. O autor decidiu não abandonar o que mais foi elogiado em suas séries anteriores, como o foco nos personagens gradualmente melhorando no esporte, mas trouxe esses elementos para um esporte mais popular. Além disso, ele ajustou a narrativa para remover totalmente as cenas escolares e treinamentos, focando totalmente nas partidas e caracterizando os personagens por meio delas.
A história sobre um clube fraco de baseball tornando-se o mais forte do Japão conquistou os leitores e durou por quatro anos na revista durante sua Era de Ouro. Kouji Koseki ainda voltou para a Jump em 1991 mais uma vez com Pennant Race Yamada Taichi no Kiseki, outro mangá de baseball, dessa vez focado nas ligas profissionais, e conseguiu mais um sucesso.
Considerado uma das lendas da Jump, Kouji Koseki é um nome que aparece até em um tal de Jojo, aonde é citado como o mangaka favorito de Kishibe Rohan. E falando nele…
HIROHIKO ARAKI

Amigo e fã de Kouji Koseki, Hirohiko Araki é mais um autor que conseguiu seu primeiro sucesso em sua terceira tentativa na Weekly Shonen Jump.
O jovem Araki era um fanático por todo tipo de arte. Amante de moda, música e mangá, o garoto decidiu começar a desenhar seus próprios quadrinhos durante o Ensino Médio, mas nunca era publicado pelas editoras. Buscando uma resposta direta, ele foi da sua cidade de Sendai até Tóquio para falar diretamente com um editor.
Pensou ir ao prédio da Weekly Shonen Sunday, mas acabou parando no da Shueisha aonde um editor deu-lhe dicas e pediu para enviar um oneshot ao Prêmio Tezuka. Assim o fez, e Araki acabou tendo o trabalho mais bem avaliado da edição de 1980.
Após alguns anos trabalhando com oneshots, Araki ganhou sua primeira oportunidade na Jump com Mashounen B.T. Os editores da revista, em sua maioria, eram contra a publicação do mangá com um título que significa algo como “Garoto Demônio B.T”, já que a imagem Jump era de heróis com qualidades positivas. B.T era um mangá com um protagonista que se vestia e agia como vilão e resolvia os conflitos com inteligência e não força bruta. Era o mangá que Araki sonhava em fazer desde criança… e foi cancelado em apenas 10 capítulos.
Araki viu a distância entre Sendai e Tóquio como um grande empecilho para sua carreira, já que precisava fazer o trajeto de quase cinco horas entre as cidadades com frequência e ter reuniões por telefone. Usando TODO o dinheiro que recebeu por B.T, ele se mudou para a capital japonesa.

O autor viu B.T como um mangá focado em batalhas cerebrais, então decidiu tentar algo completamente diferente. Em 1984 ele retornou com Baou Raihousha, obra no qual um jovem é transformado numa arma biológica ambulante. O foco agora era em lutas físicas, assim como o demais da revista, mas com ainda foco em elementos de horror e violência acima do normal. Cancelado em 17 capítulos.
Após anos em Tóquio, Araki disse ter crescido como artista. Passou a interagir com arte do todo mundo mais do que nunca e conhecia agora pessoas com interesses similares em cultura. Essa vivência foi importante para a criação de seu novo mangá em 1987: Jojo’s Bizarre Adventure, a qual chamou de uma ode à humanidade logo no primeiro volume.
Contando a história de Dio, um jovem manipulador e inteligente, tal como B.T, e Jonathan, um jovem altruísta e de força física, tal como Baou, Jojo trouxe tudo que era de interessante das obras anteriores de Araki em uma história que cativou muito mais o público. Com a popularidade só crescendo nas Parte 2 e, principalmente, 3, Jojo se tornou um dos maiores e mais influentes mangás de todos os tempos.
E um tal de Kouji Koseki, a maior inspiração de Araki segundo o mesmo, fez um pequeno desenho e recomendação para o volume 2 da série.
TAKESHI OBATA

Outro jovem que desafiou seus sonhos na Weekly Shonen Jump foi Takeshi Obata. Amante do mangá, ele teve trajeto similar aos demais, com a criação e envio de oneshots para a editora. Com uma das duas obras mais bem avaliadas do Prêmio Tezuka de 1985, o autor foi preparado por alguns anos para trabalhar na revista, enquanto crescia como assistente para autores como Makoto Niwano (The Momotaroh).
Em 1989 veio sua primeira oportunidade com Cyborg Jii-chan G, um mangá de comédia e ação sobre um velho robótico no futuro. O mangá até conseguiu sobreviver um pouco e ganhar umas páginas coloridas, mas a competição era altíssima durante a Era de Ouro e o cancelamento veio em 31 capítulos. Na época, até Ryotsu, protagonista de Kochikame, lamentou o final repentino de uma obra tão única. Era uma forma de Osamu Akimoto, lendário mangaka de Kochikame, dar uma forcinha para Obata.
O conceito estranho de protagonista porém pode ter feito os editores decidirem que o foco de Obata agora seria a arte, com todas suas séries futuras tendo escritores especializados. Primeiro foi Majin Boukentan Lamp Lamp, cancelado em 23 capítulos, e depois Chikarabito Densetsu Oni wo Tsugu Mono, cancelado em 21 capítulos.

Esse poderia ser o final da história. Três strikes e fora? Mas não foi o caso para Obata, talvez por se tratar de um desenhista, ele teve mais uma chance em Karakurizoshi Ayatsuri Sakon que foi cancelado em 32 capítulos em 1995, Entretanto o mangá incrivelmente virou um anime mesmo assim em 1999. Ao mesmo tempo, Obata finalmente trabalharia num grande hit.
Escrito por Yumi Hotta, Hikaru no Go foi um sucesso logo de cara. Sempre na parte superior da TOC, o mangá de go foi muito elogiado tanto pela sua escrita e arte, com números excelentes de vendas e sendo considerado por muitos como um dos melhores mangás da história da Jump.
Depois disso parece que um switch ligou e Obata empilhou sucessos em várias parcerias como os enormes Death Note e Bakuman. Apesar de uma década inicial mais complicada, ele se firmou como um dos traços mais icônicos da indústria.
KOHEI HORIKOSHI

O exemplo moderno de um autor que teve sucesso na sua tentativa final e que muitos devem conhecer é Kohei Horikoshi com Boku no Hero Academia.
Um enorme fã de quadrinhos, tanto japoneses quanto ocidentais, o jovem Horikoshi foi outro autor que se dedicou aos oneshots desde cedo, sendo um dos vencedores do Prêmio Tezuka em 2006, quando tinha 20 anos. Inspirado por obras como Naruto e One Piece, ele logo foi lançando oneshots em revistas Jump preparando-o para seu futuro debut. Um deles, em 2008, era Boku no Hero, sobre um salaryman que quer se tornar um herói usando itens já que não possui poderes.
Porém a primeira série de Horikoshi foi Oumagadoki Doubutsuen. Lançada em 2010 na Weekly Shonen Jump, o mangá possuia um conceito único com uma protagonista trabalhando num zoológico para um Homem Coelho amaldiçoado. Lá inúmeras maluquices aconteciam com os animais e a obra trazia elementos tanto de comédia quanto ação.
Apesar de muito único e com um traço bonito, o mangá era estranho demais para os leitores, assim passou a maior parte de seus 37 capítulos no final da TOC da revista até ser cancelado. Horikoshi mesmo assim mostrou potencial e conquistou um grupo cult de fãs.

Não demorou para voltar com seu segundo mangá, Sensei no Barrage, em 2012. O mangá que reunia elementos de fantasia, sci-fi e ação foi um fracasso e acabou cancelado em apenas 16 capítulos. Dessa vez a crítica era pelo mangá ser básico demais, com personagens pouco chamativos ou interessantes.
Retornando às origens, Horikoshi e os editores decidiram usar a chance final do autor numa transforção do oneshot Boku no Hero em uma série, muito provavelmente aproveitando a popularidade da Marvel no cinema e o quanto o autor entendia dos cape comics ocidentais.
Como o oneshot focava num salaryman, a principal mudança foi no protagonista que passou a ser um jovem garoto, mudando o cenário da história para uma escola, assim Boku no Hero se tornou Boku no Hero Academia.
Com um primeiro capítulo emocionante sobre o desejo do jovem Izuku Midoriya de se tornar um herói, mesmo sem ter nascido com poderes, o público se apaixonou pela série de primeira. A reação foi óbvia para todos que estavam ali no momento, se tratava do futuro grande hit da Weekly Shonen Jump. Até hoje os editores da revista recomendam que todo autor novo leia o primeiro capítulo de Boku no Hero Academia para entender como fisgar leitores.
No entanto, nem o sucesso mudou o sentimento de medo de Kohei Horikoshi. Segundo o autor, Boku no Hero Academia foi escrito como sendo a última chance da sua vida de se tornar um mangaka e esse sentimento está refletido nos personagens. Toda a idéia de sofrimento deles querendo alcançar seus sonhos, mas sentindo que não são capazes e precisam trabalhar duro para manter o sonho vivo. Tudo isso é reflexo de Horikoshi, que já afirmou que o medo do cancelamento nunca o abandonou até o fim do mangá.
Hoje, ele pode dormir tranquilo por já ter contado uma história do começo ao fim. Suas experiências pessoais como autor de mangá permitiram que ele criasse uma obra mais rica sem perder a essência do que lhe fazia um autor de potencial lá no começo.

Quem sabe esse possa ser o caminho de Kawaguchi também? Ele foi inclusive assistente em Boku no Hero Academia. Já Terasaka pode se inspirar em Kouji Koseki já que, igual a ele, também publicou três spokon. Ser cancelado é triste para qualquer autor, mas recolher os cacos e tirar algo dali é essencial para o sucesso, seja na Jump ou fora dela. Como diria Deku:

