A Jump Comics lançou neste mês de junho inúmeros volumes, incluindo a edição de estreia das novas séries Under Doctor e Kinato’s Magic. Entretanto, em poucos dias, a grande maioria desses exemplares esgotou nas lojas online e físicas, passando a ser comercializada em plataformas de revenda por preços abusivos e inacessíveis. O público japonês, indignado, começou a culpar os scalpers pela manipulação do mercado.
Contudo, esse problema não teve início neste mês de junho, mas sim há dois meses, quando uma celebridade da internet utilizou sua influência para iniciar um movimento que vem prejudicando diversos setores do mercado de mangás. Entenda o caso:
O QUE LOGAN PAUL FEZ
No dia 21 de abril, a celebridade americana Logan Paul publicou em seu Instagram uma notícia que abalaria o mercado de colecionismo de mangás. O YouTuber revelou ter adquirido por milhares de dólares as edições da Weekly Shonen Jump que marcam as estreias de Dragon Ball e One Piece. Juntamente com esse anúncio, ele divulgou sua própria plataforma online de colecionismo, a RIPIT, que visa estabelecer um espaço para a compra e venda de itens raros.
Logan Paul, que teoricamente jamais leu o mangá One Piece, publicou em seu Instagram:
“Orgulhoso dono dos maiores mangás do mundo. One Piece Capítulo Um 9.0 (segunda maior nota do mundo, pop 3) comprado por $XXX.XXX (adivinhem). Primeira aparição oficial de Monkey D. Luffy. One Piece é o mangá nº 1 em vendas no mundo, com 600 milhões de cópias vendidas. Dragon Ball Capítulo Um 9.2 (maior nota do mundo, pop 1) comprado por $550.000. Primeira aparição de Goku e Bulma (…)”
O que para olhares mais desatentos poderia parecer uma simples “aquisição de colecionador”, configurou uma verdadeira manipulação de mercado. Os valores despendidos nessas edições, como os 550 mil dólares direcionados ao primeiro capítulo de Dragon Ball, são de vinte a cem vezes superiores aos preços habituais pelos quais a mesma edição da Weekly Shonen Jump era comercializada no mercado de colecionismo. Contudo, esse gasto desproporcional fazia parte do plano de Logan Paul, que buscava gerar uma falsa demanda (e um valor inflacionado) para essas obras, estimulando um mercado no qual sua própria plataforma obteria lucros.
Não é a primeira vez que Logan Paul transita por diferentes segmentos com o objetivo de lucrar por meio de sua comodificação (a transformação de bens e serviços em commodities). A primeira vítima dessa estratégia foi justamente Pokémon, que já possuía um mercado bastante mercantilizado, mas no qual se formou uma bolha insustentável atualmente, tornando algumas cartas raras itens praticamente exclusivos para milionários.
No entanto, a comodificação de quadrinhos e cartas surgiu antes da manipulação de mercado realizada por Logan Paul. Trata-se de uma tradição americana observada há décadas, seja com as cartas de Magic ou com as histórias em quadrinhos (comics) de super-heróis. Todavia, diferentemente dos comics, os mangás shonen e shoujo nunca foram produtos concebidos com a premissa de se tornarem conteúdos de tiragem limitada; pelo contrário, a lógica histórica desse mercado fundamenta-se em preços baixos, impressões massivas e acessíveis para as massas.
O colecionismo sempre existiu no universo dos mangás, mas impulsionado em grande parte pelo apego histórico às edições, e não visando ao lucro especulativo. As revistas mais valiosas alcançavam, no máximo, valores entre 5 e 10 mil dólares (como a primeira edição da Weekly Shonen Jump), com a maioria custando entre 10 e 200 dólares, enquanto edições históricas de séries como Naruto podiam ser encontradas por menos de mil dólares. Com sua iniciativa, Logan Paul aproveitou-se desse nicho para injetar uma lógica de mercado norte-americana que catapultou os preços.
Nos dias subsequentes, Logan Paul restringiu os comentários de sua publicação inicial e realizou novas postagens: exibindo a aquisição do primeiro volume encadernado (tankobon) de One Piece e incentivando o público a adquirir revistas e itens colecionáveis de mangá.
O COMEÇO DA BOLHA
A publicação de Logan Paul desencadeou uma “corrida armamentista” por parte de revendedores globais, que passaram a adquirir exemplares da Weekly Shonen Jump e volumes encadernados das principais séries para fins de revenda, consolidando um mercado de colecionadores agressivos e scalpers de mangás. Para quem não está familiarizado com o termo, colecionadores agressivos compram produtos históricos para revendê-los por mais 1000% do seu valor real, enquanto scalpers são indivíduos que compram grandes volumes de produtos para gerar escassez artificial e revendê-los rapidamente por preços substancialmente inflacionados
O scalping nesse nicho opera sob a lógica da escassez artificial: adquire-se o maior número possível de cópias disponíveis, não com o intuito de preservação, mas para desabastecer o mercado e revendê-las por valores exorbitantes. O mangá passa a ser tratado praticamente como uma criptomoeda, semelhante aos NFTs, destituído de seu valor cultural e histórico em prol do ganho meramente financeiro. Leitores de mangás e colecionadores tradicionais acabam sendo expulsos do ecossistema, substituídos por investidores de criptoativos que sequer conhecem o trabalho de Akira Toriyama, Masashi Kishimoto ou Eiichiro Oda.
Esses indivíduos enxergaram nesse mercado emergente uma oportunidade de retorno financeiro rápido e fácil. Assim, passaram a comprar diversas revistas históricas de menor valor (entre 50 e 2.500 dólares) para revendê-las por quantias superiores a mil ou dois mil dólares, tornando inacessíveis muitos dos itens que os colecionadores costumavam adquirir. Ao notar a formação dessa bolha especulativa, alguns colecionadores tradicionais também aproveitaram a oportunidade para vender seus acervos.
Edições e produtos falsificados também começaram a surgir na internet, incluindo supostos rascunhos, falsas assinaturas e designs de personagens jamais produzidos por Akira Toriyama. Scammers surgiram com o objetivo de ludibriar essa nova onda de compradores que desconhecem a realidade do mercado de mangás, agravando ainda mais a situação.
O ESTADO ATUAL: SCALPERS EM JUNHO 2026
É provável que toda essa situação configure uma bolha especulativa, semelhante à dos NFTs, que eventualmente irá estourar; a questão central é o tempo que esse colapso levará para ocorrer. Atualmente, o cenário continua a se agravar: não apenas os volumes históricos estão sendo visados pelos scalpers, mas também os lançamentos recentes, como ocorreu com o volume mais recente de One Piece e com as edições de estreia das novas séries da Weekly Shonen Jump: Under Doctor e Kinato’s Magic.
Os scalpers adquiriram esses volumes em massa, levando-os ao esgotamento (sold-out) em poucos dias e impedindo que os entusiastas das séries ou leitores curiosos adquirissem os volumes encadernados (tankobon), agora disponíveis apenas por meio de revendedores que duplicam ou triplicam o valor de capa. Se antes o impacto concentrava-se nos volumes históricos, atualmente até mesmo o público japonês enfrenta dificuldades para adquirir os novos lançamentos. Até mesmo obras canceladas, como Gonron Egg, são encontradas em sites de revenda.
Além de gerar dados de vendas distorcidos – como no caso de Kinato’s Magic (obra em risco de cancelamento) que no Ranking Shoseki esteve com um volume de vendas próximo ao de Shinobigoto (título de modesto sucesso na Weekly Shonen Jump) -, a prática provoca grande insatisfação no público consumidor, agravando a crise no segmento de mangás físicos, que já enfrentam um declínio contínuo de consumo entre o público jovem.
A editora, obviamente, ainda dispõe do sistema de votação nas revistas e de mecanismos de pesquisa para aferir a popularidade real de uma obra; entretanto, esse é o menor dos problemas. O verdadeiro problema reside no fato de que essa estratégia distorce o significado do mangá e ataca diretamente um ecossistema do qual muitos dependem.
O mangá é uma expressão artística popular, concebida para ser economicamente acessível. Financeirizar essa arte não apenas constitui uma contradição, mas agride ativamente o mercado físico, que tenta desesperadamente sobreviver diante da modernidade digital. A mercantilização da arte não afeta somente os leitores, mas todo um ecossistema estruturado na acessibilidade de preços e na valorização do trabalho artístico.
As livrarias, inicialmente, podem até comemorar o esgotamento dos estoques, mas os reais consumidores não foram atendidos. Estes estão sendo obrigados a migrar para as versões digitais – e alguns talvez, nunca voltem para a versão física, caso esse problema continue por mais meses -. O prejuízo para as livrarias e para todos os postos de trabalho dependentes da cadeia de impressão de mangás (produção, logística, vendas e mercado de usados) poderá ser severo se essa bolha não estourar logo e se os scalpers não abandonarem essa prática agressiva.
Os scalpers não acabarão o mercado físico, contudo, estão gerando um impacto que transcende o mero aumento de preço de uma edição, afetando o trabalho e a renda de diversos profissionais. Torna-se necessário, portanto, que, caso o cenário persista nos próximos meses, as editoras adotem mecanismos mais rígidos de controle de compras, como o estabelecimento de um limite de exemplares por cliente, a exemplo do que foi feito quando Kagurabachi enfrentou desabastecimento em 2024.
Atualmente, são os colecionadores globais e o público japonês que sofrem com a manipulação de mercado iniciada por Logan Paul e seus aliados. Caso essa prática se mostre efetivamente lucrativa para os scalpers e investidores que mercantilizaram os mangás, ela fatalmente se expandirá para outros países, atingindo os leitores casuais europeus, americanos e latinos, agravando ainda mais o panorama atual.



