Com a inflação se tornando um problema grave no Japão, é importante discutirmos a “dívida de serialização”, um risco real enfrentado por mangakás que acabam contraindo dívidas devido aos altos custos com assistentes e materiais para iniciar uma nova série.
Embora não se saiba exatamente quantos profissionais passam por isso hoje, essa realidade surpreende até os leitores japoneses mais casuais, que não imaginam que todo o valor recebido pelo manuscrito é consumido pela própria estrutura do estúdio para garantir o nível de qualidade exigido. Neste artigo, vamos explicar a lógica por trás desse cenário e mostrar como o cálculo operacional de um novo lançamento, tanto para as editoras quanto para a equipe do autor, é muito mais complexo do que se pensa.
OS VALORES DO MERCADO
Quase todos, se não todos, os departamentos editoriais de mangá do Japão pagam por página de manuscritos. De acordo com a Real Sound Japan, em 2024, A Young Magazine, pagava 14.300 ienes por página (em preto e branco), com os lançamentos digitais pagando mil ienes a menos, enquanto a Weekly Shonen Jump pagava 18.700 ienes. Já em editoras de médio porte, o pagamento é normalmente de 8 mil ienes por mês. Em dólar, esses valores seriam respectivamente: $89, $116 e $50.
Em um capítulo de 20 páginas, sem página colorida, um autor novato da Weekly Shonen Jump receberia desse modo 2.320 dólares, somando um total de 9.280 dólares se lançar todos os quatro capítulos daquele mês. Levando em consideração o custo de vida do Japão, se esse dinheiro fosse totalmente destinado a vida privada dos mangakás, com certeza permitiria uma ótima qualidade de vida, contudo, a realidade é diferente.
Os autores, com esses 9 mil dólares mensais, precisam pagar o estúdio, o material de produção, a alimentação, os impostos e, principalmente, o elemento que acaba pesando mais de todos: os assistentes. De acordo ainda com a Real Sound, com as artes se tornando cada vez mais complexas, principalmente em revistas Seinen como a Young Magazine, os autores estão precisando contratar mais assistentes para conseguirem manter uma serialização. O lucro dos autores acaba vindo de um segundo modo de ganhar dinheiro com suas obras: Porcentagem sobre as vendas dos volumes e royalties
A lógica, deste modo, para a grande maioria das editoras é que o pagamento do manuscrito cobre toda a produção, enquanto o lucro do autor vai vir das vendas dos volumes e royalties da obra. Em alguns casos, como dito pelo autor de Black Jack, Shuho Sato, os autores terminam se endividando.
No mercado japonês, como explicado por Muramatsu, Ex-Editor da Kodansha e atual Editor do STUDIO ZOON, o mangaká é um trabalhador autônomo, por isso não é um funcionário sob o regime CLT que trabalha para a editora, deste modo, toda a gestão da sua equipe e dos seus gastos é de sua responsabilidade. As editoras realizam contratos de prestação de serviço, nos quais o autor precisa entregar um produto (a página/manuscrito da série) em troca de um pagamento, mas como serão produzidas e como serão os gastos dessas páginas, é totalmente responsabilidade do autor.
É nisso que está surgindo um grande problema, no qual, por causa dos custos alto dos assistentes, da exigência de qualidade dos leitores e do aumento do custo de vida no Japão, para vários autores de revistas semanais o custo de serialização se tornou muito grande, fazendo com que tenham que recorrer a empréstimos para assim conseguir lançar a própria obra até quando estreasse o primeiro volume (normalmente de quatro a seis meses após o lançamento do primeiro capítulo). Uma realidade que é perigosa e chocante.
É importante dizer que a dívida de serialização não é algo novo. Em 2009, a autora veterana Nakamaru Chin revelou que, durante a sua serialização, a sua dívida foi aumentando justamente com o passar dos capítulos. Ela deu exemplo de um capítulo, por exemplo, que ela tinha ganho 361 mil ienes (2.900 dólares), contudo, somente em assistentes teve que gastar 486.500 ienes, além de 110.200 ienes com o transporte deles. Somando todos os gastos da produção, o prejuízo foi de 275.500 ienes, que chegou em um outro determinado capítulo a alcançar 657.108 ienes, por causa do uso de assistentes temporários. Por viver longe dos centros urbanos, o gasto da autora acabou sendo maior que a média.
Essa dívida, também conhecida como “Dívida de Serialização”, é uma aposta na qual o autor espera, com seu primeiro volume, recuperar todo o dinheiro investido. Contudo, a realidade do mercado é diferente: no formato físico, o autor recebe 10% do valor de capa das cópias impressas, independentemente de quanto as lojas vendam. No digital, os autores recebem normalmente 15% de todas as vendas digitais, que tendem a ser, nesse caso, mais baixas. Com a queda geral nas vendas dos volumes (que, somando o digital e o físico, estão vendendo cada vez menos), o retorno dos autores com uma serialização está se tornando cada vez menor.
Essa aposta está cada vez mais perigosa, e está criando cada vez mais autores em situação “vermelha”.
MAS O PRIMEIRO VOLUME NORMALMENTE DÁ PREJUÍZO
Tirando as editoras altamente competitivas (nas quais toda a Line-Up vende absurdamente bem), a maioria das editoras japonesas utiliza uma simples lógica para decidir se um mangá será cancelado ou não: caso o custo de manutenção daquela série seja MAIOR que o seu lucro, será cancelada. Com o desenvolvimento da cultura de “IP”, alguns mangás podem depender um pouco menos da venda do volume, podendo contar com vendas de camisetas, filmes, animes, gadgets e muito mais, mas, para séries iniciantes e para a grande maioria das séries de editoras pequenas, a maior parte do lucro depende da venda do volume.
Aí chega o dado preocupante, nem 10% das novas obras conseguem cobrir os seus custos nos primeiros doze meses.
Vamos entender bem o motivo: As editoras ficam, normalmente, com 65% do valor da capa, mas arcam com inúmeros custos: compra dos manuscritos, diagramação, design, revisão, impressão, transporte, encadernação, marketing e muito mais. Muramatsu explica que o custo inicial chega a 5 milhões de ienes (31 mil dólares) para colocar no mercado o volume 1 de uma nova série, sendo o físico mais caro que o digital.
Por isso, a editora precisa, em média, ter um retorno de ao menos 5 milhões de dólares para justificar continuar lançando o volume físico daquele mangá. No cálculo do Muramatsu, isso significaria 12 mil cópias vendidas (digital e física) ao preço de 650 ienes.
Mas se a maioria não dá um bom retorno, como as editoras continuam lançando tantos mangás? Isso acontece porque as obras de sucesso acabam trazendo tanto retorno econômico que servem para financiar a grande maioria das séries que não dão retorno. Por isso, é importante encontrar “colossos em vendas” que lancem continuamente volumes, pois eles alimentam toda a cadeia produtiva de uma editora. Muitas editoras dão justamente o período de um a dos anos para que algumas obras consigam superar a nota de corte e, assim, passem a dar lucro.
Recentemente, vimos até mesmo a estratégia de uma editora na qual limitou o máximo de royalties por ano recebido por uma autora de shoujo para que o “extra do royalty dela” fosse destinado justamente ao financiamento das obras novas. Contudo, essa prática ainda parece ser rara no mercado, com a grande maioria das editoras utilizando os próprios royalties e porcentagens para manter o ciclo produtivo.
Enquanto para as editoras isso não é um grande problema, já que é parte do cálculo operacional das mesmas, para os autores é um aviso de que o seu mangá tem grandes chances de não dar um bom retorno no primeiro ano de vida.
Limitar o custo da própria produção é algo que os autores japoneses precisam aprender já no começo da sua serialização: os editores podem dar até dicas e suporte em conhecimento, mas, normalmente, os autores precisam “se virar”. É comum, principalmente nos dias de hoje, que alguns autores não saibam calcular o custo da própria produção, resultando em despesas altas que se tornam dívidas graves caso o primeiro volume fracasse. Quando vemos uma série como You and I Are Polar Opposites, com cenários bem simples, talvez seja porque o autor optou por um baixo investimento em assistentes para ter gastos controlados.
Caso os cálculos não sejam realizados corretamente ou se espere ter uma grande qualidade desde o primeiro capítulo, o número de assistentes pode levar a série a se tornar um investimento arriscado, com grandes chances de dar errado. Mesmo assim, há autores que precisam arriscar muito, pois a qualidade técnica que a revista pede (principalmente aquelas Seinen) tende a ser muito mais alta do que o pagamento dos manuscritos consegue arcar. É por isso que vemos autores entrando em depressão ou tendo reais colapsos nervosos durante ao saberem que suas séries serão canceladas.
O mercado de mangás pode ser muito lucrativo, mas, como todo mercado artístico, é preciso saber navegar para não cair em armadilhas.


