Feito com apoio de Leonardo Nicolin
Uma “bomba” caiu na internet. A Oricon, tracker de vendas no Japão, informou que a Shonen Jump, maior revista de mangás, caiu abaixo do milhão de cópias físicas em circulação no último quarto, abaixo da marca pela primeira vez desde a década de 1970. A reação de muitos foi culpar a line-up da revista, mas essa é a realidade? Não é bem assim. Entenda com o texto.
A primeira resposta é simples e curta: Digital. O Japão é um país no qual 75% de toda receita dos mangãs são de mídias digitais, segundo Associação Japonesa de Editoras. Não quer dizer que todo volume de mangá ou revista venda nessa porcentagem — a maior parte das vendas das séries da Jump é pelo formato físico, mas aquele total inclui obras exclusivamente digitais, assinaturas online e a venda de capítulos individuais, algo comum para grandes revistas como a Shonen Jump e a Shonen Magazine.

No caso da Jump, o fator mais crucial para a redução nas vendas físicas da revista é a assinatura online. Em 2022, o editorial da Weekly Shonen Jump havia revelado que vendia cerca de 700 mil cópias da revista digital em média. Nessa época, a circulação da edição física estava em 1.3 milhões, totalizando 2 milhões de cópias semanais.
A Oricon sabe quantas revistas físicas são vendidas em média porque trabalha com as lojas e redes físicas, coletando dados diretamente delas, mas só a Shueisha sabe o quanto suas publicações digitais vendem.
É importante salientar que apesar de serem apenas quatro anos de diferença, o digital ficou cada mais vez forte em basicamente toda indústria japonesa, então é possível que a Shonen Jump tenha mantido ou até crescido no âmbito virtual.
Quando você abre o site da Jump+ uma das primeiras informações ali é: “assine a Shonen Jump digital e pague menos!”. Por 980 yen ao mês o consumidor recebe todas as edições daquele mês à meia noite, sem precisar sair de casa, além de ganhar a Jump GIGA de bônus.
Uma edição avulsa custaria 330 yen, o que ao mês seria mais caro e sem esses benefícios, fazendo com que muitos leitores tenham mudado sua forma de consumo da revista para essa assinatura digital mais conveniente e barata. O fator econômico não é tão forte porque a Jump ainda é vista como produto barato, mas a conveniência é muito importante, ainda mais quando permite que possam discutir os capítulos assim que são lançados, sem spoilers.

Nas redes sociais porém, muito se culpou a atual line-up de mangás da revista como fator principal para essa queda nas vendas. E não é bem assim. A Shonen Jump apresentou uma queda gradual consistente mesmo durante a publicação de Kimetsu no Yaiba e Jujutsu Kaisen, dois de seus maiores sucessos na história. A line-up não é grande razão para a diminuição das vendas físicas.

O gráfico acima é da Nikkei. Nele podem ver a linha do 1 milhão no meio. A queda das vendas não foi da noite para o dia, mas um processo constante e não foi mais acentuada nem com o fim de Jujutsu Kaisen. A era atual, que muitos “culpam” pela queda das vendas, inclusive foi MENOS acentuada que a redução ocorrida durante a publicação das séries de sucesso dos anos 2010. Mostrando assim que a questão das obras não interferiu de maneira significativa.
Para entender o mercado, é importante não cair no viés de confirmação. As vendas físicas estariam caindo mesmo se mangás enormes como Naruto ainda estivessem em publicação na revista. A queda progressiva das vendas da Weekly Shonen Jump começou em 1995!
Esse é o último período no qual podemos dizer que realmente a line-up impactou de forma direta e forte as vendas da revista. A revista chegou ao topo com 6.5 milhões de cópias semanais, mas com os finais de Dragon Ball, Slam Dunk e Yu Yu Hakusho perdeu três milhões de cópias em três anos, número que estabilizou e foi sangrando por toda a era de Naruto, Bleach, Hunter x Hunter, Gintama, etc.
Apesar dos números excelentes de vendas desses mangás e popularidade como anime, foi sempre impossível parar a trend decrescente da Jump.
O papel dos editores é achar obras de sucesso e, sim, é possível criticar a condução do trabalho deles. Porém é essencial não ignorar as mudanças histórias, culturais e demográficas que são muito mais influentes na transformação do mercado de mangá.

Pela primeira vez em 42 anos, a população japonesa caiu da barreira dos 120 milhões. Apesar dos esforços do governo, o número de nascimentos não volta a crescer. No último ano, 670 mil nascimentos foram registrados, em contraste o Japão teve um milhão e meio de mortes.
Por que cito isso? É essencial para entender a dificuldade de uma revista que foca, em tese, nos jovens. A população em geral está em redução, já implica queda para toda indústria no país, mas afeta mais um produto como a Jump.
Com a população cada vez mais velha, editoras caem em dilemas como o de tentar apelar ao público jovem, que ainda seriam consumidores por anos, ou apelar à maiora mais velha. Certas revistas seinen tem quedas menos acentuadas por focarem nesse público, mas não formam novos fãs.
Outra forma de crescer é a expansão internacional por meio de serviços como o Mangaplus, com a distribuição das obras Jump para várias línguas. O público japonês sempre deve ser o principal da revista por motivos óbvios, mas maximizar toda oportunidade de lucro é uma forma de estancar a ferida.
Ainda há fatores não citados como a preferência crescente do público ao anime em relação ao mangá e como as redes sociais tomam o tempo dos jovens. O importante é ressaltar que não dá para dizer “façam mangás melhores” porque é algo subjetivo, até por não existir fórmula do sucesso, e que ignora as mudanças de uma indústria cultural.
Quando mandei a notícia ao Nicolin ele não esboçou surpresa nenhuma. A tal bomba só explode quando se ignora o pavio acesso por três décadas.
