Após anos de ausência, é o momento de retomarmos as retrospectivas da Weekly Shonen Jump no Analyse It. Desta vez, iniciaremos justamente pelo ano de criação, 1968, enquanto, simultaneamente, atualizarei as matérias referentes ao período de 1995 em diante.
O conteúdo abaixo fundamenta-se em diversas fontes, incluindo entrevistas com autores, obras de editores-chefes (como Nishimura e Torishima), observações históricas e dados oficiais divulgados pela própria Weekly Shonen Jump. A fonte primordial dessa matéria, contudo, é o livro de Shigeo Nishimura, editor-fundador da revista, visto que abordaremos o primeiro semestre de 1968, antecedendo o lançamento oficial da publicação em julho daquele ano.
Caso tanto a primeira parte (janeiro a junho de 1968) quanto a segunda (julho a novembro de 1968) alcancem uma boa repercussão em termos de comentários e visualizações, esta série terá continuidade. O objetivo é analisar o intervalo entre 1968 e 1995, ao mesmo tempo em que cobrimos o período de 1996 a 2025. Com foco central na Weekly Shonen Jump, detalharemos os lançamentos de todas as séries, os desdobramentos editoriais e as curiosidades da época.
A Shonen Book
Antes mesmo da concepção da Shonen Jump, os seus quatro membros fundadores atuavam em outra publicação da Shueisha: a Shonen Book. Esta era uma revista mensal dedicada à publicação de diversos mangás voltados ao público jovem masculino. O periódico destacava-se pela abundância de obras de comédia e esportes, gêneros que tinham de imenso prestígio entre a juventude daquela época. Estava na boca da criançada.
A revista obteve êxito considerável, servindo de berço para diversos autores que imortalizaram seus nomes na história dos mangás. Entre os destaques, figuram Fujio Akatsuka, um dos pioneiros do Gag Manga (comédia), Tatsuo Yoshida, com o clássico Speed Racer, e Osamu Tezuka, o “Deus do Mangá”, que publicou variadas obras icônicas na Shonen Book. Em seus anos derradeiros, a publicação esteve sob a liderança do editor-chefe Tadasu Nagano, que posteriormente viria a fundar a Weekly Shonen Jump.
Embora fosse uma revista consolidada, a Shonen Book enfrentava dificuldades para atingir os resultados almejados pela Shueisha. O objetivo de Nagano era, precisamente, reverter o desempenho da publicação. Contudo, ao longo de sua gestão e ao observar a ascensão da Weekly Shonen Magazine e da Weekly Shonen Sunday, o editor percebeu a inviabilidade de transformar um título mensal em um fenômeno de massas: o público jovem demonstrava uma preferência crescente pelo consumo de conteúdos semanais.
Essa tendência não se restringia ao universo dos quadrinhos japoneses. As séries televisivas, os programas de auditório e até as revistas de moda, negócios e automobilismo de alta tiragem adotavam o formato semanal. Tais produtos gozavam de uma aceitação popular significativamente superior, captando a atenção do público de maneira muito mais eficaz do que qualquer periódico mensal. Tornava-se imperativo, portanto, que a Shueisha apostasse em sua própria revista semanal.
Era o momento de criar a Weekly Shonen Jump.
Criando a Weekly Shonen Jump
Diante do cenário em que a revista mensal Shonen Book já não entregava os resultados esperados e enfrentava dificuldades para competir com os periódicos semanais, Tadasu Nagano, então editor-chefe da publicação, iniciou o planejamento de uma revista semanal para a Shueisha. Contudo, era imperativo, primeiramente, convencer seus superiores de que o lançamento de mais uma revista semanal – além da Shonen Sunday – atendia aos interesses da editora. Vale ressaltar que tanto a Shueisha quanto a Shogakukan compõem o Grupo Hitotsubashi, embora operem como empresas independentes.
À época, a Shonen Sunday encontrava barreiras para rivalizar com a Shonen Magazine, que não apenas atraía os autores de maior prestígio, como também já realizava a impressão dos Tankobon (volumes individuais) de suas séries de sucesso. Paralelamente, impulsionada pelo boom econômico e populacional, a Shueisha dedicava seus esforços ao lançamento de uma versão japonesa da revista norte-americana para adolescentes Seventeen. De acordo com Shigeo Nishimura em sua obra “さらばわが青春の『少年ジャンプ』”, a editora acreditava que este último projeto seria consideravelmente mais lucrativo.
Nesse mesmo livro, que serve como fonte primordial para esta matéria, Nishimura revela os dados estatísticos das três principais revistas semanais no ano de 1968:
| Revista | Páginas Totais | Tiragem | Porcentual de Vendas | Incidência de Custos |
| Shonen Sunday | 240 | 550.00 | 90% | 90.6% |
| Shonen Magazine | 234 | 765.000 | 93% | 85.6% |
| Shonen King | 228 | 410.000 | 85.6% | 92.6% |
Com todas as publicações comercializadas ao valor de 60 ienes – um patamar extremamente reduzido -, tornava-se indispensável um robusto aporte publicitário para compensar a elevada incidência de custos.
A incidência de custos é calculada dividindo-se o custo de produção pelo preço de venda e multiplicando-se o resultado por 100. Dessa forma, a cada exemplar da Shonen Sunday vendido a 60 ienes, por exemplo, a uma incidência de custos de 90,6%, a editora obtinha um lucro de apenas 5,64 ienes. A publicidade ao interno da revista era, portanto, vital para a sustentabilidade do negócio.
O entrave da época, que se mantém até os dias atuais, residia no fato de que os principais anunciantes priorizam a faixa etária entre 18 e 59 anos, segmento economicamente ativo da sociedade. As publicidades voltadas ao público adolescente ofereciam remunerações menores e, por essa razão, as revistas semanais eram rotuladas como Kanekuimushi: projetos que consumiam muitos recursos e apresentavam baixo retorno financeiro. As revistas rivais estavam vendo um envelhecimento do público que consumia mangá (inicialmente composto principalmente por crianças), mas mesmo assim, não era o público de 18 a 59 anos.
O próprio Nishimura enfatiza que, até mesmo nos anos 90, para as revistas semanais, as vendas dos Tankobon são fundamentais para a sobrevivência e para o alcance da margem de lucro necessária. Contudo, naquele período, somente a Shonen Magazine conseguia viabilizar a publicação de volumes individuais de seus títulos.
Diante desse cenário, e após meses de negociações persistentes, Nagano conseguiu a aprovação do projeto apenas sob uma periodicidade quinzenal, e não semanal. A transição para o formato semanal ocorreria exclusivamente em caso de êxito comercial.
Quanto ao valor de capa, este foi estipulado pelo departamento de vendas em 90 ienes, sendo que 30% desse valor é destinada a loja. Embora Nagano almejasse um preço inferior ao das concorrentes – que estavam prestes a sofrer um reajuste para 70 ienes -, o setor comercial não ratificou sua visão. Assim, dispondo de apenas quatro editores, um orçamento exíguo e diversas limitações, os superiores de Tadasu Nagano autorizaram o projeto que seria batizado de “Jump”. O nome era uma alusão à expressão “Hop, Step, Jump”, simbolizando um salto em direção ao futuro.
Taikan Kyoho Shugi
Com a aprovação do projeto, a equipe foi formada por apenas quatro editores, todos oriundos da Shonen Book, que ainda mantinha sua periodicidade mensal:
Tadasu Nagano: Editor-Chefe
Yusuke Nakano: Vice-Editor-Chefe
Shigeo Nishimura: Editor
Hiroki Kato: Editor
Estes quatro profissionais foram os “reis celestiais” responsáveis pela concepção integral da revista. Nagano implementou diversas diretrizes que já haviam sido validadas na Shonen Book: a sobrevivência das séries condicionada aos resultados das votações do público, o desenvolvimento das obras em torno dos pilares “Amizade, Esforço e Vitória”, e a organização sistêmica das tarefas editoriais. No entanto, a Shonen Jump demandava elementos originais para se distinguir no mercado.
A realidade, conforme detalhado por Nishimura em sua obra, era que Nagano se revelava um gênio de perfil profundamente analítico. Nishimura, no início de sua trajetória editorial, tendia a agir por instinto, mas aprendeu com Nagano a fundamentar todas as suas decisões profissionais em números e evidências. Nagano, homem direto e de poucas palavras, transmitia segurança à equipe ao exigir constantemente o máximo de dados mercadológicos possíveis. Nishimura, Nakano, Kato e os demais colaboradores da Shonen Book realizavam pesquisas de campo incessantes para prover informações que permitissem a Nagano tomar decisões da maneira mais coerente e fundamentada.
Munido desses dados, o editor-chefe adotou a doutrina das “Grandes Naves, Grandes Canhões” (Taikan Kyoho Shugi) como filosofia editorial. Em suma, tratava-se de entregar um produto inovador, de altíssima qualidade, que reunisse já em sua estreia os nomes mais prestigiados do setor. O objetivo era confrontar diretamente a Shonen Magazine, captando a atenção de sua base de leitores.
Dessa forma, os editores Kato e Nishimura receberam a incumbência de contatar os principais expoentes do mercado: Osamu Tezuka, Tetsuya Chiba, Noboru Kawasaki, entre outros autores de destaque na época.
A revista também apresentou mudanças estruturais em relação às concorrentes. Com base nas pesquisas, Nagano notou um interesse massivo do público por quadrinhos e, assim, lançou a primeira revista semanal composta 100% por mangás. Diferente das rivais, que ainda destinavam 25% de seu espaço a entrevistas e jogos, a Jump focaria em histórias originais e vibrantes, distintas de tudo o que se via nas demais publicações Shonen.
A extensão da revista, com 250 páginas, também superava a média do mercado. Embora isso elevasse o custo de produção e, consequentemente, o preço final, a oferta de mais conteúdo gerava no consumidor a percepção de um produto “premium”, ainda que oriundo de uma editora menos renomada que a Kodansha.
Com o plano estruturado, era o momento de iniciar a execução… Contudo, apesar de toda a sua experiência e visão, Nagano havia subestimado os obstáculos do percurso.
Recalculando Rota
Apesar da existência de um departamento de vendas, Yusuke Nakano precisou, por determinação de Nagano, dominar o cálculo de despesas assim que o orçamento do departamento e o valor de capa da revista foram estipulados pela Shueisha. O editor-chefe acreditava que um editor deveria ser capaz de compreender a lógica de produção e gastos para, dessa forma, defender com propriedade os interesses editoriais. Editores que só pensassem na parte criativa da produção de “mangá”, sem entender cálculo e mercado, nunca cresceriam na carreira.
Durante esse período, Nakano aprofundou-se nos custos de impressão, encadernação, folha de pagamento, logística para reuniões e todos os cálculos indiretos do setor. Seguindo as instruções de Nagano, o vice-editor-chefe elaborou, utilizando um soroban (visto que calculadoras eletrônicas ainda não eram amplamente difundidas), um balanço preventivo do departamento editorial.
O obstáculo residia na projeção de que, caso a revista apresentasse uma incidência de custos de 85% – patamar previsto para um produto recém-lançado -, restariam apenas, isso mesmo, apenas 4 mil ienes para as despesas editoriais de cada página. Nesse montante, deveriam estar inclusos: a aquisição do manuscrito, custos de design, preparação de chapas, transporte dos editores e o Kousai-hi (verba destinada à socialização com os artistas, cobrindo desde cortesias alimentares antes das reuniões até jantares de negociação, sempre custeados pela editora).
Ao excluir o valor dos manuscritos – elemento considerado mais “negociável” -, Nakano deparou-se com uma realidade alarmante: cada edição teria um custo fixo de 250 mil ienes.
Detalhamento de Gastos (Excluindo Manuscritos):
Transporte dos Editores: 100 mil ienes
Reuniões com Autores: 50 mil ienes
Design: 50 mil ienes
Chapas: 30 mil ienes
Despesas Diversas: 20 mil ienes
Total: 250 mil ienes
Considerando que a revista teria 250 páginas, o custo de produção seria de mil ienes por página, restando apenas 3 mil ienes para a remuneração dos autores. Para efeito de comparação, a Ribon (revista shoujo da Shueisha) destinava 8 mil ienes por página, enquanto a Shonen Book operava com 6 mil ienes. Portanto, o orçamento de 4 mil ienes (sendo apenas 3 mil para os manuscritos) mostrava-se insuficiente para atrair os autores veteranos pretendidos, cujos honorários superariam vastamente esse teto.
Uma publicação composta exclusivamente por nomes consagrados tornava-se, tecnicamente, inviável. Diante da impossibilidade de contratar até mesmo um único autor de grande renome, Nagano e Nakano concluíram que, para tornar o projeto financeiramente sustentável, seria necessário lançar dois autores novatos para cada autor veterano de médio escalão presente na revista.
Dessa necessidade financeira, nascia a essência da Weekly Shonen Jump: uma revista que, em vez de repousar sobre o prestígio de veteranos, apostaria suas fichas no potencial de novos talentos.
Os meses antes do lançamento
Como o lançamento da revista seria inicialmente quinzenal, definiu-se que a extensão das obras seria de 31 páginas para dramas e 15 páginas para comédias. A publicação contaria com poucas séries fixas em seu início; faltavam poucos meses para a estreia e os autores novatos contatados ainda não estavam aptos a lançar uma série em julho. A solução encontrada foi compor a maioria das edições com One-Shots.
De fato, para as primeiras sete edições, foram selecionados apenas quatro autores capazes de iniciar uma série, sendo que somente dois deles – ambos oriundos da Shonen Book – possuíam fôlego para manter o ritmo quinzenal: Sachio Umemoto e Hiroshi Kaizuka. Estes tornaram-se os pilares fundamentais da fase embrionária da Shonen Jump. A equipe editorial optou por convidá-los para encabeçar a edição de estreia, pois ambos obtinham sucesso moderado na Shonen Book, mas ainda não gozavam de uma fama que tornasse seus manuscritos onerosos.
“Apenas mangás, apenas One-Shots, o Shinkansen dos mangás” – este era o lema da Weekly Shonen Jump. Lançado em 1964, o trem de alta velocidade (Shinkansen) ainda era um serviço de custo elevado e pouco acessível à maioria dos japoneses. A lógica de Nagano ao cunhar este lema era permitir que as crianças, que sonhavam em embarcar no trem, sentissem a mesma adrenalina ao mergulhar na velocidade dos mangás da revista. Simultaneamente, a associação ao Shinkansen conferia ao produto uma aura de sofisticação e prestígio.
A busca por talentos promissores intensificou-se muito rapidamente, com cerca de dez autores visitando o edifício da Shueisha todos os dias. Nagano concedia a esses artistas a liberdade de utilizarem o refeitório da editora, e como muitos viviam em condições de pobreza e não conseguiam se alimentar adequadamente, Shigeo Nishimura relata em sua obra que os olhos desses jovens brilhavam diante da oportunidade de comer à vontade.
Para Nishimura, a arte de criar mangás assemelhava-se ao boxe: era alimentada pela “fome”. Segundo sua visão, eram os artistas mais humildes, que buscavam na arte uma ascensão social, que logravam êxito como profissionais. Ele acreditava que, quanto maior a abastança do autor, menores as chances de prosperar na carreira. Era justamente essa urgência em transformar a própria realidade que tornava os mangás tão vívidos e inovadores, com cada autor transferindo as dores da própria alma na produção.
Contudo, a poucos meses do lançamento, manter apenas quatro integrantes no corpo editorial tornou-se inviável. Não havia editores suficientes para suprir a demanda de trabalho, e até a coleta de manuscritos enfrentava entraves. Cogitou-se o remanejamento de profissionais de outros setores, mas a revista Seventeen, cujo lançamento fora um sucesso estrondoso, absorvia grande parte da força de trabalho da Shueisha. A solução foi a contratação de novos quadros.
Enquanto um editor fixo recebia um salário de 42 mil ienes, acrescido de benefícios como vales e seguro social, a Shonen Jump não dispunha de orçamento para novas contratações em tempo integral. Assim, optou-se pela admissão de três editores freelancers, com remuneração de 30 mil ienes (27 mil após impostos), sem direito a benefícios – um valor considerado aviltante para a carga de esforço exigida.
O vice-editor-chefe Nakano, incomodado com os baixos salários e as condições precárias, confrontou Tadasu Nagano, que limitou-se a ordenar que ele encontrasse “alguém que aceitasse tais termos”. Naquele contexto histórico, a necessidade financeira impelia muitos a aceitarem qualquer forma de pagamento. Conforme relatado por Nishimura, Nakano percebeu naquele instante que Nagano geria a equipe de forma calculista e até cruel, tratando os funcionários como peças descartáveis em prol dos objetivos da empresa.
Embora os três novos editores freelancers tenham sido contratados e trabalhassem mais do que os funcionários fixos – o que acentuava o sentimento de culpa de Nakano -, as promessas de efetivação feitas por Nagano nunca se concretizaram. Anos depois, eles se mudaram para outros departamentos, como a Weekly Playboy. Para Nagano, era aceitável oferecer salários baixos mediante promessas de promoção futura; para Nakano, tal prática era inadmissível. Ele defendia que seria preferível contratar apenas um profissional com remuneração digna a submeter trabalhadores a regimes quase gratuitos para fins corporativos.
No campo prático, entretanto, a presença desses novos editores foi o que permitiu que a revista estivesse pronta para sua estreia em julho de 1968.
Prévia da Parte 2
Na segunda parte desta série, que será publicada na próxima semana, abordaremos o segundo semestre de 1968, compreendendo o período de junho a novembro (vale ressaltar que o calendário editorial encerra-se em novembro, e não em dezembro).
Nesta continuação, detalharemos o lançamento oficial da revista, a estreia de séries que se tornaram lendárias e os marcos que definiram os primeiros meses de vida da publicação. Não perca!






Kujira Daigo