Essa semana explodiu uma bomba inevitável no mundo dos mangás: A Shueisha anunciou o desligamento completo de Shihei Lin, um dos maiores editores da plataforma Jump + (não confundir com a revista semanal Weekly Shonen Jump). Ao mesmo tempo, Shihei Lin anunciou que iria continuar sendo o editor de várias das obras que a sua empresa, Mix Green, já estava seguindo.
Venha entender como o Shihei Lin está desafiando a Shueisha e da Jump +!
A PARCERIA SHIHEI LIN & SHUEISHA
Shihei Lin começou como um simples funcionário contratado da Shueisha, sendo editor de vários autores diferentes, com destaque para o seu trabalho nas séries Spy x Family, Chainsaw Man e Dandadan, tornando-se de longe o editor de maior sucesso da plataforma. A função do editor é representar o interesse da editora e ao mesmo tempo guiar os autores para que suas obras possam alcançar o maior potencial comercial possível.
Justamente pelas suas ótimas conquistas, Lin acabou sendo promovido a vice-editor-chefe. Contudo, um ano após a sua promoção, Lin decidiu deixar a Shueisha em agosto de 2022.
Na época, por causa dos grandes resultados alcançados, Shihei Lin já era bastante conhecido na comunidade de leitores da Shonen Jump. Muitos até acreditavam que Lin se tornaria o próximo editor-chefe da plataforma online. Contudo, Shihei Lin tinha um sonho maior: abrir a sua própria editora de mangás, a Mix Green.
Inicialmente, o motivo pelo qual Lin abriu a sua empresa de editoração freelance era justamente continuar acompanhando os autores de perto, ao mesmo tempo em que mantinha uma boa remuneração (algo que os altos cargos da Shueisha não permitiam, dada a natural distância do alto escalão com os autores). Contudo, com a empresa formada, eles expandiram para melhorar o sistema de produção de mangás e revisar certas regras de direitos autorais.
A relação entre Lin e a Shueisha não terminou com o nascimento da empresa. A Mix Green continuou a oferecer editoração aos autores dos mangás acompanhados por Lin por meio de um contrato terceirizado pago pela própria Shueisha. Além de oferecer a edição dos capítulos, a Mix Green também negociava os produtos derivados dessas séries, participando até do comitê de produção de alguns desses itens (como a peça teatral de Spy x Family).
A BRIGA
O “racha” interno começou quando a própria Mix Green iniciou o planejamento para o lançamento de sua plataforma online, a qual contará com 10 séries que serão expandidas para 20 títulos ainda no primeiro ano de lançamento (sem data definida). A plataforma de leitura, criada inicialmente apenas para o mercado japonês, mas já com negociações para um lançamento internacional, acendeu um alerta vermelho para a Shueisha, que viu no crescimento da Mix Green um concorrente.
A relação dos autores da plataforma e dos novatos com a Mix Green também não agradou à Shueisha: muitos novatos estavam vendo a proposta e o suporte da Mix Green como mais vantajosos do que o lançamento na Shonen Jump+, e, por isso, começaram a circular vozes nos bastidores de que a empresa estava “roubando” os autores da Shonen Jump+. Lin, em 2022, chegou a revelar que chegou a gerir mais de 100 autores da plataforma.
Por causa disso, em meados deste ano, a Shueisha decidiu rescindir o contrato com a empresa de Lin.
Ainda não está bem clara a divisão de direitos autorais e patrimoniais entre Mix Green, Shueisha e editores das séries; entretanto, após o desentendimento, a situação parece bem mais caótica do que aparentava antes. A Mix Green revelou-se não somente uma intermediária, mas detentora de muitos dos direitos patrimoniais de várias produções derivadas de Dandadan, WITCHRIV e, principalmente, Spy x Family, enquanto a Shueisha certamente mantém os direitos de lançamento dos volumes encadernados.
O FUTURO: CANCELAMENTO E DIREITOS
Muitos especulam sobre um possível risco de cancelamento ou hiato indeterminado das séries, o que não deve acontecer: no máximo, teremos uma pequena pausa para readequar a produção, mas mesmo assim, levando em conta que os autores já estão trabalhando atualmente com editores delegados, não parece que haverá uma paralisação superior a 15 ou 30 dias.
A realidade é que o sistema criado pela Mix Green é algo que pode beneficiar muito os autores, já que oferece maior liberdade de trabalho e segurança em relação à sua obra, ao mesmo tempo em que mantém a colaboração com as editoras, diminuindo o custo de produção de uma nova série. O problema surge quando esse mesmo estúdio de editoração se transforma em uma editora própria, criando um conflito de interesses.
A Shueisha, antes aberta ao sistema proposto, pode passar a ter uma postura mais defensiva, fechando as portas para outras propostas similares ou criando mecanismos de defesa para as obras lançadas pela editora. Atualmente, os direitos autorais da obra continuam com o autor, diferentemente dos Estados Unidos, onde muitas vezes são vendidos para a produtora. Não vejo a essência desse sistema mudando, mas a criação de mais mecanismos de controle, como a não participação nos direitos patrimoniais das obras por parte de estúdios terceirizados, pode vir a acontecer.
A Mix Green tem tudo para se tornar um agente importante no mercado de mangás, mas não podemos nos apressar: pela própria apuração do Analyse It, a editora ainda está no início, com uma equipe bastante reduzida, sem capacidade de absorver autores internacionais ou assumir muitos novos criadores japoneses. O foco será um lançamento controlado voltado ao público japonês. Caso essa estreia controlada dê certo, por meio de concursos e contratação de equipes internacionais, poderemos ver a Mix Green crescer.
Também não existe chance imediata de Spy x Family, Dandadan, WITCHRIV ou Centuria migrarem para a nova plataforma online: todos continuarão na Shonen Jump+. E, se esses autores forem para a nova plataforma no futuro, será por meio de continuações dessas obras (como aconteceu com Hokuto no Ken migrando para a recém-criada Coamix nos anos 90) ou por meio de novas séries.
Agora somente nos resta assistir para ver como irá se desenrolar toda a questão dos direitos das obras derivadas, algo que a Shueisha não deve estar feliz em ter perdido parte do controle.



