A MPEG é uma das principais editoras do mercado nacional, responsável pelo licenciamento de obras como Gash Bell, Chihayafuru, Alter-Ego e Hajime no Ippo, além do lançamento de títulos nacionais como Sense Life, Betiger e 48km.
Em poucos anos, a editora conseguiu se destacar no cenário brasileiro e, mesmo enfrentando as dificuldades normais do início de uma nova empresa no setor, conquistou a confiança do consumidor. Agora, o Analyse It vai entrevistar justamente o publisher da editora, Diogo Diógenes.
Durante a entrevista, Diogo Diógenes revelou as principais dificuldades enfrentadas por uma nova editora, o diferencial da MPEG e a sua visão como publisher em relação ao mercado nacional.
Leia abaixo:
Leonardo Nicolin (Entrevistador)
Primeiramente, Bom dia Diogo. A MPEG é uma editora nova no mercado, contudo já conseguiu alcançar ótimos resultados, atingindo tanto o público que gosta de licenciatura quanto o público que gosta do mercado nacional. Quais são as principais dificuldades em licenciamento para uma editora que está começando no mercado e que o público em si tem dificuldade de entender?
Diógenes Diogo
Vamos colocar em primeiro lugar o custo. Tudo é muito custoso. Estamos tratando de Brasil. É meio estranho falar isso, porque parece que tudo está muito ruim no Brasil. Há um pouco de falácia nisso.
O problema maior é que o papel é uma commodity no Brasil. Tudo é calculado em dólar; qualquer aumento no exterior também causa aumento no mercado interno. Então, o custo gráfico é o principal problema para nós. É o principal custo. É muito mais difícil lidar com impressão do que lidar com royalties, por exemplo. É o nosso principal entrave.
A outra questão é como chegar aos licenciantes certos, da forma certa e no momento certo. Para uma editora nova, quando se está em um mercado que já possui muitas editoras consolidadas, é muito difícil que um licenciante consiga dar prioridade a você por ser novo, para algum título específico ou para uma editora específica. Ele sempre vai priorizar o parceiro de trabalho com quem já atua há mais tempo. E é normal agirmos assim na vida. Sempre priorizamos quem já possui mais contato. Essa é outra questão.
Acho que o terceiro ponto é a distribuição. O Brasil é um país muito grande, então também há um custo muito alto para distribuir em todo o território. Vejo algumas pessoas reclamarem dos Correios, por exemplo. Mas se não fossem os Correios, acho que seria tudo ainda muito pior, porque as transportadoras não conseguem acessar todos os lugares. É impossível dizer: “Ah, não vamos trabalhar com os Correios”. Isso não existe. Até porque muita gente afirma: “Não, nós trabalhamos com a transportadora X”, sem saber que essa transportadora X, na verdade, opera através dos Correios. Lemos muita coisa na internet de pessoas que realmente não sabem como funciona.
Portanto, acho que seriam estes os três pontos principais: distribuição, impressão e conseguir chegar aos licenciantes para obter a atenção deles para trabalhar.
Leonardo Nicolin
Falando, inclusive, em chegar aos licenciantes, acredito que a MPEG está fazendo um ótimo trabalho em trazer obras que são populares, mas que, talvez por terem muitos volumes ou por outras questões, ainda não tinham chegado ao mercado nacional. Temos, por exemplo, Hajime no Ippo, que é uma obra clássica, uma das maiores histórias do mercado japonês. Podemos falar também de Chihayafuru, outra obra que já passou de 40 volumes e já foi concluída no Japão.
Muitas pessoas queriam essas obras, mas, por variados motivos, elas nunca chegaram ao mercado nacional. Qual é a lógica por trás da escolha dessas obras, que poderiam até ser consideradas de alto risco para algumas editoras, mas que acabaram trazendo um ótimo resultado para a MPEG?
Diogo Diógenes
Eu já trabalhei em outras empresas, mas acho que o diferencial da MPEG é que todo mundo conversa entre si. Ouvimos a opinião desde o assistente até o dono da empresa. São pessoas que realmente gostam e entendem. Não é alguém que está lá só para ter o resultado no final do mês nas compras da editora.
Quando o Pedro entrou na MPEG, ele veio com um dos pensamentos com os quais já trabalhávamos antes e que só ajudou a somar: por que traríamos um monte de mangás desconhecidos que acabaram de sair para depois dizer “Putz, não vendeu”, se temos vários mangás antigos que sabemos que já possuem uma base de fãs? Conseguimos mesclar isso.
Damos atenção às coisas novas, trazendo títulos recentes que acabaram saindo até no Japão, como no caso de Omori, por exemplo. Demos muita sorte. De Omori, saíram dois volumes. Nem havia o jogo ainda, mas… Adaptações de jogo em mangá nem sempre são um sucesso.
Contudo, conseguimos mesclar isso, atraindo o público e fidelizando quem estava carente de determinadas obras, como Nodame Cantabile, Hajime no Ippo e Gash Bell!. Esse público se fideliza com a editora e se interessa em comprar o catálogo novo também.
Essa é a estratégia: somar essas duas partes. Assim como já tivemos o caso de pessoas que foram a uma feira, compraram Omori, perguntaram o que era aquela obra de música e se interessaram. Acho que trazer títulos não é só um trabalho executivo, por assim dizer. É um trabalho de conseguir entender as necessidades do mercado.
Quando conversamos com os licenciantes, foi muito comum ouvir deles: “Nossa, nem nós entendemos como Nodame Cantabile nunca saiu no Brasil”. É um dos josei mais importantes da história. Não faz sentido. Houve um mangá específico para o qual enviamos proposta uma vez e perguntamos se não havia sido publicado ainda por algum entrave do autor ou algo do tipo, e eles responderam que não, que era só porque ninguém tinha se interessado antes. Você vê como muitas empresas tratam mangás apenas como números.
Falta essa percepção de fã e de conhecer o produto que se está vendendo. Acredito que temos isso na alma da MPEG.
Leonardo Nicolin
Inclusive, falando em tratar sob a perspectiva de números, acho que um dos pontos muito fortes da MPEG é saber trabalhar com vários gêneros diferentes. Percebe-se que há uma visão no mercado nacional de que o que vende é apenas e únicamente o battle shonen, o que não é verdade. É possível trabalhar vários gêneros diferentes, sejam obras de nicho ou não, que podem trazer um grande resultado e que possuem público no Brasil.
É isso que muitas pessoas não conseguem entender: que existe público para BL, para comédia romântica, para esporte, para isekais e para vários gêneros diferentes que acabam não chegando tanto ao mercado nacional. Qual é a visão da MPEG, principalmente sobre trazer essa diversidade de gêneros para o mercado brasileiro?
Diogo Diógenes
Esse é outro ponto que também entra na questão de não olhar somente para os números. Quando olhamos os maiores sucessos do mundo, são do gênero battle shonen. Nós sabemos disso. Sabemos que é Demon Slayer, Naruto, Jujutsu Kaisen… Enfim, entendemos, não somos leigos. Existe um padrão aí, não é?
Obviamente, o battle shonen é um grande negócio. Ele é importante para a saúde financeira de uma editora que busca lucro. Dito isso, acho que tem muito mais a ver com expectativa do que com o título em si.
Quando você não conhece a obra com a qual está trabalhando e exige que um mangá, vou usar um exemplo aqui, como Nodame Cantabile, tenha o mesmo desempenho de Demon Slayer, obviamente você não vai conseguir. E não é por falta de qualidade em Nodame Cantabile, mas porque existe um público específico querendo aquilo.
Esse público não é necessariamente o mesmo de Demon Slayer. Por isso, quando dizemos que não temos nenhum mangá que dá prejuízo, é porque temos tudo isso em mente. Conseguimos identificar aquele público e aquela necessidade, calculando com base nisso. Sabendo que uma tiragem vai ser X e não Y, que o preço de capa precisa de ajuste ou não, sabendo se para aquele público precisaremos colocar o reforço de um brinde ou tratar de algo específico.
Acho que é muito sobre alinhar as expectativas de negócio com o conhecimento do produto. Se você não tem conhecimento sobre o seu produto, voltando ao assunto anterior, fica muito difícil exigir um resultado de algo que será diferente do seu bestseller. Nada pode ser comparado diretamente com o outro.
Existe um dos grandes lojistas do mercado que, quando vamos realizar uma venda para eles, diz: “Precisamos que você associe este título a algo que já existe no mercado, porque temos uma expectativa de vendas”. Ou seja, se o lojista tem essa visão, por que a editora não teria?
Novamente, não vou dizer que faltam pessoas qualificadas, porque seria um absurdo, sei das limitações das editoras, principalmente quanto a burocracias, mas existe uma engrenagem que deixa esse fluxo a desejar. Acho que é nisso que a MPEG consegue acertar: olhar para o mercado como um todo.
Leonardo Nicolin
Falando justamente no mercado como um todo, não podemos ignorar o mercado nacional. A MPEG está fazendo uma ótima transição ao apostar no licenciamento, mas também ao apostar no mercado nacional. Percebe-se isso com Sense Life, que foi um grande sucesso, e com 48Km e Betiger como lançamentos atuais. Qual é a visão atual da editora em relação ao mercado nacional de mangás?
Diogo Diógenes
O mercado nacional vive um momento curioso, porque temos muita qualidade, mas faltam pessoas qualificadas o suficiente para lidar com essa qualidade. Às vezes, acho que falta um direcionamento para o pessoal. Estivemos agora no CMB e tive o prazer de ministrar a masterclass sobre como apresentar um pitch de apresentação para as editoras.
Percebe-se que o mercado é muito cru. As pessoas têm dificuldade de entender como funciona esse processo, que não se resolve da noite para o dia. Você não precisa ser bom em tudo; quem é muito bom na arte pode não ser no roteiro, e está tudo bem, há mercado para todos.
Contudo, essa ânsia de produção faz surgir muita coisa. Fazer essa seleção, entrar em contato com o pessoal e fazê-los entender os pontos fortes e fracos é um processo que leva tempo e investimento. Entendo que nem todas as editoras e nem todos os editores querem ou podem ter esse trabalho por conta da demanda, pois há outras prioridades a organizar.
Nós enxergamos essa brecha. Vimos que existe essa demanda e que há muita gente de qualidade no mercado precisando de editoração, de alguém que oriente: “Você pode fazer isso aqui de outra forma”, “Vamos trabalhar isso assim”, “O trabalho está cru, mas tem potencial” ou “Você não gostaria de fazer a arte para outro quadrinho nosso?”. Enxergamos isso e estamos conseguindo investir de maneira crescente.
Começamos com Sense Life, e queremos expandir de diversas formas. Queremos ajudar esse pessoal a mostrar que o Brasil pode ser um mercado de criação absurdo.
Mas acho necessário colocar os pés no chão também. Calma, o nosso mercado é novo e vocês precisam de pessoas para ajudar a fazer acontecer. Até brinco com meus amigos editores: “Vocês precisam ajudar a gente, o Brasil está ganhando espaço nacional para trabalhar com vocês. É preciso ajudá-los com a ideia criativa”. Eu vivo batendo na tecla de que o pessoal não sabe o que é um CMYK e um RGB, algo básico para um artista que publica na internet ou em impresso. Não digo que eles são obrigados a saber disso, mas é claramente uma falta de instrução no mercado.
O que falta no mercado para conseguirmos atingir essa galera? É isso que estou tentando fazer na MPEG: dar todo esse suporte para termos uma linha de produção não no nível do Japão, mas no nível do Brasil, com a cara do Brasil.
Leonardo Nicolin
Quais são as diferenças de risco para uma editora em relação a trabalhar e lançar um mangá nacional em comparação a trabalhar com licenciamento e lançar um mangá licenciado?
Diogo Diógenes
Acho que depende muito do caso. O internacional sempre conta com o marketing que vem de fora, do Japão. Infelizmente, sei que tem reduzido muito, ainda bem, mas temos um problema de preconceito com os traços nacionais. Isso ocorre por diversos motivos, como falta de amadurecimento do artista ou do próprio público. Tudo isso é colocado na ponta do lápis na hora de investir ou não.
Por isso tudo volta à ideia da expectativa. Quando você trabalha com um nacional, trabalha com qual expectativa? Querendo vender como Naruto ou com uma expectativa com os pés no chão, dando suporte para aquele autor crescer junto a uma comunidade?
Não é só isso; é preciso ter um trabalho completo. Eu vivo dizendo que, quando vamos atrás de um autor, é basicamente como um programa de domingo da família brasileira: buscamos informações de tudo. Investigamos se aquele autor é conhecido na internet, se já tem uma base de fãs ou se já se envolveu em alguma polêmica, porque tudo isso influencia. É entender: “Este autor é muito bom, mas o quanto vale a pena investir nele?”. Ou então: “Neste aqui podemos investir um valor maior porque haverá retorno lá na frente”. Ou ainda: “Com este outro, vamos tentar pegar apenas a licença e tornar o projeto um produto comercial”.
Quando se trabalha com um nacional… Eu vivo dizendo a alguns artistas: se o seu objetivo é só lançar o seu gibi a qualquer preço, você não precisa de uma editora hoje em dia, convenhamos. Você pode fazer isso de forma independente, pelo Catarse ou pelo Apoia.se.
A editora hoje deve ser muito mais do que uma publicadora; ela deve ser um suporte. Deve pensar em marketing, em merchandising e em como trazer novos leitores para esse autor. Se fosse para ser apenas uma publicadora, não faria sentido, seria apenas uma gráfica, entende?
Então, os riscos são diferentes, sim, mas não por causa da qualidade do material, e sim porque o trabalho precisa ser diferente. Você não consegue trabalhar com um quadrinho nacional da mesma forma que trabalha com uma obra internacional.
O trabalho é muito menor no internacional, pois você já tem o marketing na mão. Você pede ao licenciante o que foi feito no Japão, solicita a arte para fazer um banner e ele já tem tudo pronto. O seu trabalho é aprovar. No Brasil, existe o trabalho de editoração propriamente dito. Temos poucas pessoas fazendo esse trabalho de chamar o autor, conversar e planejar o que pode ser feito. É muito diferente.
Essa é a diferença. Acho que não são riscos financeiros, mas sim riscos de investimento operacional e de trabalho.
Leonardo Nicolin
Como última pergunta, qual é a expectativa da MPEG para os próximos anos em termos de mercado de mangás, seja licenciamento ou mangá nacional?
Diogo Diógenes
Olha, se você me fizesse essa pergunta dois anos atrás, minha resposta teria sido diferente. O Brasil vive um período peculiar. Como eu disse, não acho que, para quem trabalha com entretenimento e sabe como trabalhar, esteja sendo um período ruim; o entretenimento é uma das indústrias que mais cresce no Brasil desde a pandemia.
Para quem consome livros, tem sido a mesma coisa. Se você abrir a Amazon hoje, parece que a cada semana surgem duas editoras novas. Isso vale não só para quadrinhos, mas para literatura, quadrinhos americanos, mangás, etc.
No geral, precisamos saber se uma hora isso vai estourar como uma bolha, se haverá tanto produto a ponto de o público não consumir da mesma forma ou migrar para o digital, o que também pode acontecer.
Acho que há outra questão importante a levantar: a relação entre o luxo e o acessível. Qual caminho se quer trilhar? Quer-se tentar ir para o mercado de luxo? Existe mercado para isso?
Estamos chegando a um ponto em que um mangá comum custa 50 reais, um mangá básico. Isso para mim já não é acessível, mas também não consigo mais produzir um mangá a 20 reais de custo, é impossível chegar a esse preço hoje.
A tendência para daqui a 5 anos é que o mercado continue existindo, mas as editoras terão que pensar muito bem em qual público-alvo vão trabalhar e o que querem fazer. Vão continuar investindo em títulos populares? Vão tentar trazer títulos desconhecidos? Ou vão tentar trazer um luxo acima da média para atingir um nicho e faturar em cima disso?
É muito vago prever 5 anos. Em 2 anos, eu diria que a expectativa é de que os quadrinhos nacionais continuem ganhando muito mais espaço, porque é muito mais fácil entrar no mercado com um quadrinho nacional. É muito mais fácil lidar com o autor, você está com ele ao seu lado. Se quiser fazer um colecionável, você pergunta diretamente a ele se pode. Não é preciso esperar 3 meses por uma resposta ou assinar um contrato longo. A tendência é que os nacionais ganhem muito espaço.
Dito isso, vai depender de como cada empresa conseguirá se manter competitiva, porque acho que essa bolha do preço de capa uma hora vai estourar. Tenho receio de quando isso vai acontecer. Hoje estamos tentando fazer o possível para segurar os preços ao máximo e, mesmo tentando, é difícil.
Financeiramente, vai ser um período desafiador. Ficamos sabendo recentemente que entrará um novo imposto para autores literários no Brasil. Não sabemos o impacto disso a longo prazo. É pouco, 0,6%, mas quanto esses 0,6% vão influenciar no preço de capa lá na frente? O royalty para o Japão não é tão alto, varia de 8% a 10%. Parando para pensar, não é muita coisa, mas se você tiver que vender seu produto para um lojista com 60% de desconto, quanto sobra realmente para trabalhar e investir em outras obras? Não é só lucro; seu lucro serve para investir em outras obras. Eu até brinco: se quer ganhar dinheiro, não vá para o mercado editorial. É preciso ter a sorte de acertar em um grande sucesso.
Estou confiante de que os nacionais terão muita abertura. Acho que trabalhar com os artistas e fazê-los entender a necessidade do público e deles mesmos é empolgante. Não é à toa que comecei o projeto MPEG Originais. Realmente acho que é uma porta que se abriu e que a MPEG está conseguindo trabalhar bem e construir seu espaço. Hoje não são poucas as pessoas que olham para a MPEG e dizem que querem publicar conosco.
Acho que é isso.

Foto: Divulgação MPEG