Em setembro, o Analyse It irá iniciar uma sequência de entrevistas com autores, editores e personalidades do mundo dos mangás brasileiro, discutindo suas obras, temáticas do mercado e muito mais. O principal objetivo dessa série é justamente mostrar a grande diversidade e força do mercado brasileiro de mangás, que está crescendo cada vez mais.
Nada melhor do que começarmos justamente com uma entrevista com a IaraNaica, autora de “48 km”, um quadrinho autoral brasileiro, publicado em volume único pela editora MPEG. A narrativa acompanha Jade e Kelly, duas jovens de personalidades contrastantes que se conhecem em um ponto de ônibus e constroem um relacionamento cheio de momentos cômicos cotidianos.
Capa de “48 Km” – Edição Definitiva (MPEG), à venda na Amazon
Nicolin: Olá Iara! É prazer ter você aqui conosco. Como primeira pergunta, gostaríamos de começar com uma pergunta curta, mas não tão simples. De onde partiu a ideia de criar e produzir “48 km”?
IaraNaica: O “48 km” nasceu, na verdade, como uma ideia solta, porque antes de criar o quadrinho eu tinha uma página de tirinhas com o meu nome, Yara Naica, uma página do Facebook que está lá até hoje, e eu fazia tirinhas engraçadas sobre o meu cotidiano.
Quando surgiu a ideia de colocar duas personagens se conhecendo no ponto de ônibus, foi mais ou menos nessa pegada de: “Ah, agora eu não vou fazer histórias sobre mim, eu vou fazer histórias sobre essas personagens”. E todas seriam tirinhas aleatórias, de causos, assim, das duas se conhecendo.
Tanto que, na publicação online, os primeiros capítulos são totalmente avulsos, são tirinhas aleatórias, sem nenhum tipo de conexão.
Então a ideia foi mais ou menos isso: “Ah, vou contar aqui a história de duas garotas se conhecendo no ônibus”, sem nenhum compromisso. Não tinha planejamento nenhum de contar exatamente uma história, e sim de contar apenas piadinhas, esquetes, dos encontros da Jade e da Kelly.
Nicolin: Interessante. De fato, ao longo dos capítulos que você publicou (atualmente são 9 capítulos publicados na FLIPTRU), a gente vai conhecendo um pouco melhor a Jade e a Kelly, que são personagens, na apresentação da história, bem diferentes em personalidade, que não conseguem nem acreditar que uma pode estar apaixonada pela outra.
Como foi a criação da personalidade da Jade, começando por ela, e como você, ao longo desses capítulos, foi conhecendo-a cada vez melhor?
IaraNaica: Para criar a Jade, eu tive meio que um conflito, porque, no desenvolvimento do design dela, eu peguei um desenho que eu tinha feito antes da produção do quadrinho, uns 6 anos atrás, no qual eu tinha desenhado a mim mesma em comparação com outras garotas, sabe aqueles desenhos de rivalidade feminina. E logo a Jade era totalmente baseada fisicamente em mim, por causa disso.
E quando eu comecei a contar a história, eu pensei: “Eu preciso dar uma personalidade para ela, mas eu não quero dar a minha personalidade”. E nisso eu comecei a criar pequenos arquétipos que podem ser encontrados no decorrer da história, como ela ser uma pessoa hipocondríaca que anda com sacolas de remédios, uma pessoa acumuladora que tem um molho de chaves, enquanto eu, sei lá, tenho duas (risos).
Então, tudo o que eu pensava sobre o que eu faria, eu coloquei a Jade para fazer o contrário. A minha ideia da personagem era: “Ok, já que ela tem o meu visual, ela não vai ter as minhas características”. Esse foi o meu pensamento para fazer a Jade. Apesar de ter todo esse estereótipo de “a baixinha”, “a nerd”, “não sei o quê”, disso não tem como escapar.
Nicolin: E a Kelly, como foi a criação? Você a pensou mais como uma pessoa que é o oposto da Jade, por isso pensou primeiro na Jade e depois na Kelly, ou se baseou em outra pessoa que você conhece da sua vida?
IaraNaica: A Kelly é uma mistura, uma mistura de várias pessoas que passaram pelo meu cotidiano, desde amigos da escola a primas conhecidas. O visual já entrega a questão do oposto das duas. E eu sempre pensei em conjunto sobre como seria a característica de cada uma.
E a Kelly também é um estereótipo. Da garota que, por morar no Ceará, é forrozeira, o que para muita gente do Sudeste seria o quê? Uma pessoa que gosta de sertanejo universitário, coisas do tipo. Então é muito reconhecível ter essas características em pessoas comuns mesmo.
Então foi fácil para mim criar a personalidade dela me baseando em pessoas que eu conheci e até mesmo em um pouco de mim. Eu diria que a Kelly tem mais da minha personalidade do que a Jade.
Nicolin: Muito interessante isso, muito interessante. E eu acredito que a sua série tem uma personalidade forte também porque tem muito do seu humor, que já vem da sua origem nas tirinhas, e continua serializado ao longo dos capítulos. Talvez esse seja o elemento mais forte de todo o “48 km”, é muito engraçado de ler. Você consegue fazer com que esses personagens ganhem vida através da piada.
Para você, como funciona a criação do humor? Quando você pensa no capítulo, você pensa primeiro na piada que vai ter, na situação engraçada que vai ocorrer, ou você vai mais pelo sentimento e isso vai nascendo ao longo da produção das páginas?
IaraNaica: É mais nisso mesmo. Eu penso na piada. Eu quero contar uma piada sobre isso. Como eu posso desenvolver a história para chegar a esse ponto?
Começa assim, como uma esquete mesmo, aquelas esquetes no estilo, sei lá, “Porta dos Fundos”, sabe? Uma piadinha de “A Praça É Nossa”. A minha ideia surge primeiro com a piada. E quando eu vou escrever o capítulo, a página, eu tento fazer uma história que chegue até essa piada. Então eu praticamente já sei como vai ser o final, eu só preciso criar o desenvolvimento até chegar a esse ponto. É mais ou menos isso que eu faço.
IaraNaica: E o seu mangá, obviamente, tem como uma temática forte toda a questão LGBT, não é? Principalmente porque a gente está acompanhando o amor entre a Kelly e a Jade.
Quando você começou a desenvolver o mangá, você pensou em ter como público-alvo somente quem segue obras com temática LGBT? Ou você já estava pensando também na possibilidade de a obra alcançar um público mais vasto, porque essa representação em mangás, em obras no geral, é muito importante justamente para o pessoal conhecer mais e quebrar certos preconceitos existentes?
IaraNaica: No início foi bem sem pretensão nenhuma. Porque assim, como eu tinha a página Yara Naica com o meu cotidiano, havia coisas que eu me limitava a não colocar na página para não expor muito da minha vida pessoal.
Então, quando eu comecei “48 km”, eu dizia assim: “Poxa, estou em um relacionamento com uma mulher, vou fazer um quadrinho aqui sobre relacionamento entre mulheres”. Não que seja um tipo de, como é que eu posso dizer, história sobre o meu romance, porque não tem nada a ver.
Mas eu queria contar algo diferente que escapasse disso, de ser só sobre a minha vida, que era o que eu escrevia antes. Então a parte de ter essa representatividade foi mais uma questão pessoal do que uma tentativa de alcançar um público diferente. Fui mais eu querendo mostrar outro lado de histórias que eu podia criar, e esse lado também tinha a ver com a minha sexualidade.
Nicolin: Como você viu a reação do público ao ir a eventos como a PocCon, que foi onde foi lançado o primeiro volume, e também o Anime Friends, no qual você também pôde estar presente fisicamente? Como foi toda a reação do público? Como foi a experiência?
IaraNaica: Acho que desde o início, desde quando era publicado só online, a partir dos comentários das pessoas acompanhando, e no final da publicação em que eu literalmente cheguei a chorar, sabe? Todo esse carinho é algo que para mim é quase indescritível.
Eu não tenho, eu diria que o meu repertório de palavras é muito limitado para descrever o quanto eu sou grata por todo esse carinho que as pessoas têm, tanto na internet quanto pessoalmente.
Na PocCon, principalmente, foi fantástico, porque, como é um evento gratuito, a quantidade de público é diferente se comparada a eventos pagos, como Anime Friends, Bienal do Rio e tudo mais. Então é complicado tentar descrever, eu te juro, eu fico sem palavras.
O carinho deles é algo que eu sinto que tenho que retribuir, e eu espero que eles tenham gostado bastante dessa nova versão do quadrinho impresso, porque eu consegui colocar tudo o que eu queria da história ali, e eu acredito que todo mundo vai se sentir satisfeito com a nova produção que foi vendida agora.
Nicolin: Você falou que até chorou quando terminou o último capítulo. Obviamente há a questão da recepção do público, de toda a aventura de passar a escrever um mangá e ver o público reagindo. Mas em relação à conexão com os personagens, como é, de certo modo, concluir o arco de personagens aos quais você se conectou por anos e, de certo modo, acabar também se apaixonando pelos seus próprios personagens?
Como foi fechar, de certo modo, um ciclo? Não obrigatoriamente dizer adeus, mas fechar um ciclo em relação à Kelly e à Jade?
IaraNaica: Tem uma frase que me disseram uma vez: a parte mais difícil de um quadrinho, as partes mais difíceis de um quadrinho, são começar e terminar. E, de fato, em muitos quadrinhos você, infelizmente, não chega a ver o final porque, por N motivos, o autor não consegue finalizar a história e tudo mais.
Nicolin: Nana, por exemplo, ainda sofro…
IaraNaica: Eu consegui sentir essa questão do que é finalizar uma história, finalizar o planejamento de algo que literalmente mudou a minha vida, de algo que me conectou com várias pessoas, me trouxe coisas boas, oportunidades, amizades. Então eu diria que concluir a história é um dos passos mais difíceis e mais importantes da vida de um autor.
E acredito que assim, quando eu planejei, eu já sabia como ia ser o final, é claro. E eu nunca pensei assim: “Ah, eu vou continuar” ou “Eu vou fazer algo a mais”.
Principalmente nesta nova versão agora, que tem dois capítulos a mais, o que era algo que eu tinha planejado antes, mas não deu tempo de fazer na versão antiga da história, eu me senti aliviada dizendo: “Pronto, tudo o que eu queria contar agora eu contei e espero que todos gostem”.
Nicolin: Perfeito, perfeito. E ao longo desses capítulos também deu para ver uma evolução clara sua em relação à arte, em relação à produção, em relação à técnica. Nesse quesito, como foi para você aperfeiçoar a sua própria habilidade de desenhar e de criar mangá ao longo dos capítulos? Como foi?
IaraNaica: No início, quase toda a minha carreira é baseada em “eu vou fazer e não sei como”. Os primeiros capítulos online, como eu havia dito, eram totalmente aleatórios e tinham três quadros. Eu fazia tirinhas em três quadros. E no decorrer da história eu pensei: “Eu não estou conseguindo produzir em três quadros, vou mudar para quatro”.
E eu mudei para quatro me baseando em outro mangá chamado “Tomo-chan Is a Girl!”. Vi que dava certo e continuei produzindo desse jeito. Só depois, perto do final do quadrinho, foi que eu descobri que essa técnica de quatro quadros é muito usada no Japão. E eu absorvi isso sem querer. Tipo, só por estar lendo outro mangá relacionado a isso, eu acabei aprendendo como fazer.
E em seguida eu comecei a estudar mais para poder melhorar a forma de contar a história. E isso eu acredito que foi a maior evolução que eu tive: na questão da narrativa. O traço é algo que vai evoluindo naturalmente, independentemente do que você estiver fazendo, o desenho contínuo vai fazer você melhorar.
Agora, na parte de narrativa, na parte de saber contar a história, realmente quando você estuda mais sobre isso, você sabe como fazer de uma forma melhor e entende até mesmo coisas que você já fazia e não sabia.
Nicolin: Adicionando só uma informação, um dos meus mangás preferidos do Japão também trabalha nesse quesito dos quatro quadros, que é “Shimeji Simulation”. É uma série yonkoma sobre uma garota que vai para a escola e descobre que tem outra garota morando no armário da escola dela. A partir disso, começa toda a relação de amizade entre essas duas garotas. E a obra trabalha muito bem nesse quesito de sempre usar esses quatro quadros.
E é bem legal que você conseguiu adaptar e manter muitos elementos da brasilidade, porque você é uma autora brasileira. Então você praticamente traz essa estrutura de história, mas, de maneira até inconsciente, vai adicionando todos os elementos, criando, podemos dizer, uma mistura entre Japão e Brasil na criação de um mangá de quatro quadros. Isso é algo bem legal.
E em relação à MPEG, eu já ouvi uma entrevista em que você falou um pouco sobre como foi a primeira reunião com eles. Contudo, você poderia explicar também para os leitores da Analyse It como foi o contato com a MPEG e como foi ter essa ótima oportunidade de lançar um volume único de “48 km” pela editora?
IaraNaica: Sim, o contato com eles começou de uma maneira um pouco triste, naquela velha história de “há males que vêm para o bem”, porque há uma edição anterior do “48 km”, que é em dois volumes, lançada por outra editora. Só que essa editora acabou me passando para trás, teve problemas judiciais, problemas com direitos editoriais. Por conta disso, eu tive que começar um processo cível contra eles, e nisso houve uma grande repercussão sobre o assunto.
Na época o meu quadrinho já estava bem conhecido, tinha chegado a ganhar prêmio, tinha ganhado o HQ Mix em 2024. E quando foi em junho de 2025, quando eu estava na PocCon de 2025, o editor da MPEG veio falar comigo, perguntar como estava a relação contratual, se estava tudo bem comigo, se eu precisava de ajuda, já que, como era uma questão editorial, eles saberiam me orientar melhor. Chegaram assim como uma grande ajuda.
Não só eles, preciso ressaltar que várias outras editoras chegaram a me oferecer advogado para poder ver isso, porque existem advogados especializados na parte editorial. Então o meu primeiro contato com a MPEG acabou sendo nessa situação, uma situação um pouco complicada. Mas durante esse período não tinha nada a ver com “ah, agora vamos lançar o seu quadrinho”, porque nessa época ainda havia a edição antiga.
Apenas em setembro do ano passado foi que eu consegui os direitos editoriais novamente do meu quadrinho e entrei em contato com a MPEG, mandei páginas dos extras que eu estava produzindo e disse: “Então, eu comecei a produzir o meu quadrinho novamente, vocês teriam interesse em publicar?” A partir disso, a nossa parceria começou.
Nicolin: História espetacular. E como foi ver pela primeira vez essa nova versão finalmente sendo lançada pela MPEG sem ter nenhum problema, sem ter nenhuma questão judicial e poder estar nos eventos com a versão física e com o público amando?
IaraNaica: É uma sensação de dever cumprido, sabe? Quando eu fiz a edição anterior, faltavam algumas coisas que não deu tempo de fazer por causa do prazo de entrega de produção. Então eu ficava só naquele pensamento: “Ah, depois eu vou fazer um extra, vou lançar outra edição aí com a editora antiga”. Eu ficava com esse pensamento de que ainda faltava alguma coisa.
Só que desta vez, conseguindo o contato da história com a MPEG, é uma sensação de libertação, de dever cumprido e de que agora eu posso me dedicar a outras coisas, a outras histórias, à minha vida pessoal, a jogos que estou atrasada para jogar ou a filmes que preciso assistir.
Porque a produção de quadrinhos é isso: às vezes você abdica de algumas coisas para estar produzindo. Não de uma maneira ruim, nada disso. Eu acredito que essa sensação é mais libertadora, como eu disse, de dever cumprido e de muita felicidade com isso. Eu não sei explicar bem como definir, mas é mais ou menos isso.
Nicolin: Sim. E em relação ao mercado nacional, agora junto com a MPEG, há várias outras editoras que estão investindo muito nos autores brasileiros. Eu acho que a gente está começando uma nova era para o mangá nacional. Talvez a que possa se tornar a grande era de ouro do mangá nacional. É o que eu espero, é o que muitas pessoas esperam e o que realmente pode acontecer se esse movimento continuar crescendo.
Como você vê em si esse crescimento do mercado nacional?
IaraNaica: A questão do mercado nacional eu acredito que ainda é meio que um coringa como assunto. Eu já vi muita gente falando: “Ah, estamos no ápice”. Eu espero que não, porque o ápice é o máximo a que se pode chegar. Eu acredito que dá para crescer ainda mais.
E assim, a questão de épocas é uma parte bem complicada. É um assunto sobre o qual eu penso assim: nos anos 2000 nós tínhamos Holly Avenger. Chegou a vender, acredito eu (me corrija aí com pesquisa se eu estiver errada), até mais ou menos umas 400 mil cópias em circulação pelo Brasil. É um número que hoje é comparável a mangás como, sei lá, Jujutsu. Coisa que é difícil de alcançar com uma publicação nacional.
Mas eu acredito que, no período em que nós estamos agora, nós não vamos mais viver de fases, como houve essa fase durante os anos 2000. Começou outra em 2010, que foi com as revistas de mangás nas quais foram publicados nomes gigantes do quadrinho nacional atual, como Max Andrade, Cássio Pato, João Eddy, pessoas que ganharam prêmios internacionais e foram para o Japão por causa de suas obras. E a partir de 2020 vem essa nova leva também, que tem o meu quadrinho aí no meio, tem o Sense Life, Lampião, Ping Pong Drama. Por décadas, cada década vai vir essa nova leva.
Então eu acredito que, a partir desta agora, com esse crescimento que está havendo principalmente na internet, a minha opinião é de que não vai haver mais essas fases. Tipo, durante uma década teve tal, durante outra, não. Acredito que agora a produção seja mais voltada para novos talentos aparecendo constantemente. E isso é maravilhoso para o mercado, é maravilhoso para o público e espero que ajude bastante na questão de mercado, porque ser famoso e ter sucesso não são sinônimos.
Querendo ou não, eu ainda tenho que ter outro emprego e muitos outros quadrinistas não trabalham só com quadrinhos. Então a minha previsão é de que sucesso nós vamos ter e eu espero que o mercado acompanhe isso.
Nicolin: Ótimo. E em relação ao GL, BL e a todas as obras LGBTs, é um mercado muito promissor no Brasil. Nos últimos anos houve uma dificuldade porque muitas marcas deixaram de dar apoio para projetos LGBTs, mas muitos têm esperança de que esse apoio retorne. Você vê também no mundo dos mangás um bom movimento em relação ao BL e GL no Brasil ou acha que atualmente o cenário ainda está muito complicado?
IaraNaica: Assim, é um nicho mundial, isso não tem como negar. Assim como a demografia feminina, o BL e o GL se encaixam nisso. Não é o mais famoso e continua sendo um nicho. Mas a parte do sucesso só tende a crescer. Tanto que atualmente, se você for ver, o mangá mais vendido do Brasil é um GL. Então a tendência também é aumentar em questão de público.
Marcas podem ignorar, não sei, grandes canais de comunicação podem também dar…
Nicolin: Pouco destaque ou nenhum.
IaraNaica: É, pouco destaque e tudo mais, mas o público é quem comanda as coisas. O público é quem compra, o público é quem exige e quem sustenta o mercado. Então, enquanto houver público, enquanto estiver vendendo, a tendência realmente é só crescer.
Assim como eu tinha falado em relação à produção nacional, com o público crescendo, a demanda cresce, o mercado cresce e a gente só tende a ganhar com isso. Eu espero que tanto marcas quanto criadores de conteúdo parem com isso de ignorar, porque estamos aí produzindo e sendo um dos maiores sucessos atuais no Brasil, quiçá no mundo.
Nicolin: Perfeito. E última pergunta agora: você já tinha comentado sobre concluir o ciclo de dever cumprido em relação a “48 km”, e agora tem tempo para jogar os jogos que ficaram acumulados, ver alguns filmes, viver a vida, o que também é importante no geral. Mas em termos de artista, você já tem uma ideia, já está passando coisas pela sua mente, já está colocando a mão na massa ou ainda está naquela fase de descanso em relação ao futuro?
IaraNaica: A cabeça não para, é ideia o tempo todo. Eu tenho a impressão de que estou fazendo outras coisas para não ter que pensar e estar trabalhando.
Mas assim, eu já tenho outro projeto que comecei há dois anos, que é “A Rosa de Ouro Preto”, um projeto que estou fazendo em parceria com a minha esposa: ela faz o roteiro e eu faço a arte. Ele chegou a ser interrompido por causa do problema com a editora antiga e é no que eu pretendo focar atualmente, depois deste novo lançamento de “48 km”.
Pretendo também trabalhar em outros projetos paralelos, assim como fiz no ano passado, quando participei de uma coletânea de quadrinhos chamada “Fliperama vs Comics”. Foi uma coletânea feita com vários artistas do Instagram que me convidaram, e eu disse: “Pô, vou participar também, é bem legal”.
Então, atualmente eu quero focar mais nisso: em dar aos projetos pessoais o meu próprio tempo, não me cobrar tanto e participar de vez em quando de coletâneas, de especiais, de colaborações, porque é sempre legal estar junto com os amigos lançando alguma coisa em conjunto ali para ter uma gama maior de projetos e estar se divertindo também com os colegas.

Brindes da Edição
Página de 48Km