Haikyuu: Batalha do Lixão, lançado uma década após a estreia do anime
Os alarmes são óbvios para qualquer um que acompanha vendas de mangá, mas está claro que os leitores não estão migrando em massa dos super hits do final da década passada para novas obras. Os números que séries como Kimetsu no Yaiba, Jujutsu Kaisen e Tokyo Revengers conquistaram foram absurdos para níveis históricos: só para dar um exemplo, Kimetsu no Yaiba em 2020 vendeu 85 milhões de cópias, batendo o recorde anterior de One Piece em 2011, quando vendeu 38 milhões — mais que o dobro!
Esperar que esses números fossem repetidos num contexto pós-pandemia era impossível, mas a queda que se deu nos anos depois colocou os números abaixo daqueles da década de 2010. A obra mais vendida de 2025 foi One Piece com 4 milhões de cópias.

Mas o problema aqui não está em One Piece, com um número decente para seu tamanho e o fato de ter poucos novos fãs em potencial, já que é o mangá mais popular do Japão. O problema está que novos mangás não conseguem chegar a esses números das duas décadas anteriores.
Alguns podem dizer que parte disso é a migração para o digital e, sim, isso até tem alguma verdade. Segundo dados da Associação Japonesa de Editoras de Revistas e Livros, o digital é mais de 76% do mercado japonês de mangá — entretanto esse número conta com inscrições, compras de moedas digitais, obras lançadas primariamente no digital, etc. Não quer dizer que a venda física de um mangá possa ser vista apenas como 25% de seu total, é algo que varia de caso a caso, com a maioria das obras da Weekly Shonen Jump vendendo um pouco mais ou menos de 50% no digital, de acordo com o ranking da Billboard. Ainda muito além dos sucessos do passado.
O que pode explicar essa queda então? Uma suposição é anime, o quanto as pessoas são engajadas neles e a mudança na forma de consumo.
ANIME É UM FATOR?

Embora o mercado de mangá tenha crescido em relação à decada anterior em geral, o mesmo ocorreu com a indústria de anime — só que o crescimento dessa parece maior e mais estável: enquanto a indústria de mangá contraiu 1.7% em 2025 para 692 bilhões de ienes, os últimos números de 2024 mostram que a indústria de anime cresceu no Japão em 2.8% chegando a 1.6 trilhões de ienes.
Segundo a Media Partners Asia, os serviços de streaming cresceram em 15% de 2024 para 2025 no país. Aliado à TV pública, o alcance do anime só fica cada vez maior para o público japonês. Se antigamente o jovem japonês só tinha como opção o mangá físico para matar tempo num trem até a escola, agora ele pode ver o último episódio de Jujutsu Kaisen diretamente do seu celular.
Antigamente era comum ler na internet a máxima de “o anime existe apenas como marketing do mangá”, mas isso não é mais o caso moderno. O anime hoje é uma indústria mais rentável e acessível que o mangá, com enorme parte do lucro de grandes franquias vindo de licenciamentos e produtos que só começam a ser produzidos após uma animação.
“Mas se esse é o caso, por que os novos sucessos em anime tem dificuldade para competir com os antigos?”
É simples… porque eles não acabaram.
FENÔMENOS DURADOUROS

Slam Dunk: pilar da Era de Ouro da Weekly Shonen Jump, época que a revista vendia mais de 6.5 milhões de cópias semanalmente. Popularizou o basquete no Japão e em vários outros países da Ásia. 185 milhões de cópias em circulação! Duração do anime? Menos de três anos.
Fazendo uma comparação direta, Haikyuu é o clássico “moderno” de esporte da Jump. O mangá começou em 2012, mas o anime chegou em 2014 e ainda não acabou. Ou seja, já são mais de 12 anos de continuidade do projeto de adaptação da spokon de vôlei. E a diferença dos mangás nem é tão grande, com Slam Dunk tendo uma duração de por volta de seis anos de publicação.
Vamos a outro dos pilares da época: Yu Yu Hakusho. O mangá durou pouco menos de quatro anos (1990 até 1994) e o anime foi transmitido por menos de três anos.
Antigamente, os anime duravam menos e existia uma transição maior do público de uma série para outra, mais similar a como as próprias revistas faziam. Essa cultura mesmo pode ter diminuído pela redução dos leitores delas, com a Jump atual tendo por volta de 1 milhão de cópias em circulação, menos de 1/6 do seu auge nos anos 1990.
Curiosamente, até os hits antigos se tornam uma ameaça às obras novas com o próprio Slam Dunk tendo um filme novo de sucesso em 2022, com uma bilheteria de mais de 270 milhões de dólares e que causou um retorno do mangá, que vendeu mais de 4 milhões de cópias na primeira metade 2023 — um período que coincide com a atual era do fracasso das spokon no mercado shounen. O acesso maior aos clássicos, que já estão completos e com versões animadas, deixa o cenário mais complicado para uma franquia que existe apenas como mangá.
CULTURA DE FANDOM

Alguém pode achar que “é injusto” comparar adaptações modernas, que saem em temporadas, com animes do passado, que tinham duração maior e mais contínua. O ponto é que, apesar de não estarem em exibição o tempo todo, sua base de fãs continua ativa.
Vivemos num mundo conectado por redes sociais que é cada vez mais fácil uma pessoa conhecer outras com gostos em comum, criar fanarts, escrever fanfics, discutir o que está vendo ou lendo. Apesar da internet existir nos anos 1990 e 2000, seu alcance era menor e a internet era mais fragmentada. Se alguém quisesse discutir uma obra, seria provavelmente aquelas em exibição na TV no momento ou em publicação como quadrinho.
Hoje, é mais fácil um fã se dedicar mais integralmente à poucas obras que lhe interessam mais. Se essa pessoa gosta de Jujutsu Kaisen, ela ainda terá memes (como o acima), discussões e artes novas infinitamente na internet. E a indústria se adaptou a isso; essas franquias viraram verdadeiras IP que continuam ganhando novos produtos, eventos, conteúdos, etc mesmo após seu fim. Algo que era incomum no passado, tirando poucas exceções de muito sucesso, como Dragon Ball.
Isso faz com que esses fãs sejam tão ativos, mesmo com menos episódios em anime, quanto os fãs de obras longas semanais eram nas décadas anteriores.
A percepção do anime original de Bleach é de que foi muito longo, porém ele esteve em exibição por 8 anos na TV. O anime de Kimetsu no Yaiba já está alcançando seu sétimo ano, com o final ainda por vir daqui alguns anos. A IP Kimetsu no Yaiba continua no imaginário popular mesmo nesse período entre novas temporadas e filmes.
O processo é simples de entender. Se perguntar a alguém quais são as obras “atuais” da Weekly Shonen Jump, o que virá à cabeça da maioria das pessoas é uma mistura de Boku no Hero Academia, Chainsaw Man, Jujutsu Kaisen e Kimetsu no Yaiba — obras todas encerradas, e não Sakamoto Days e Ao no Hako, parte do trio de pilares atual. Embora sucessos, eles não são tão presentes no imaginário popular, e o caso é ainda maior com séries ainda sem anime.
MUDANÇAS CULTURAIS E ECONÔMICAS

Alguns motivos estão levando mais aos fãs a apoiarem mais certas séries específicas em grande escala, quando se fala de anime. Enquanto a indústria de mangá tem um número mais dissipado de vendas em torno de um grande número de obras.
Além do já comentando fenômeno de fandom e a popularidade das redes sociais, um enorme fator é o econômico. Embora a economia japonesa esteja crescendo novamente depois impulso à inflação, algo não feito por décadas na nação, o consumo interno do cidadão japonês caiu a níveis menores que os de 2019, como diz reportagem da Reuters. Isso implica que apesar do preço dos produtos elevar o valor das empresas japonesas e impulsionar aumentos de salário, a medida, aliada à queda do valor do iene, está levando os japoneses a gastarem cada vez menos.
Em momentos assim, o óbvio a ser cortado é entretenimento. Uma assinatura da Amazon Prime, um serviço que enorme parcela do país já assina para compra de produtos online, custa 5900Y por ano, já uma Weekly Shonen Magazine custa 400Y por semanas, o que daria quase 20000Y ao ano. Fica claro qual das opções é mais vantajosa para quem quer interagir com a cultura de anime e mangá.
Claro, existem assinaturas e mídias digitais com preços menores; até por isso mesmo com a queda do mangá físico, a indústria de mangá cresceu acima dos níveis da década anterior. A questão é que o formato tradicional de “revista” se torna menos forte.
Alguém que lê as séries da Shonen Magazine pelo serviço digital/aplicativo Magazine Pocket tem um acervo de centenas de obras, com dezenas sendo atualizadas toda semana ou mês. Ela não precisa depender apenas das 20 séries como fazem as revistas de mangá.
Enquanto isso o público de anime assiste a um número menor de obras que estão passando na temporada, seja no seu streaming ou na TV, um método ainda mais barato de assistir anime já que não é preciso de assinatura ou compra nenhuma.
Esses fãs por temporada, na maioria costumam seguir poucas séries, mas vários com mais afinco. Se precisam usar seu suado dinheiro para algo, que tal um produto da nova collab de Blue Lock? Quem sabe novos produtos de Haikyuu? Ou até mangá…

Acima temos as séries que mais venderam mangá no mês de Fevereiro. Essas listas são influenciadas por temporadas de anime. Vamos falar do top 5.
Em primeiro, Tensura que está para estrear uma nova temporada de seu anime. O mangá, adaptação da novel, já possui 11 anos de publicação.
Para segundo, temos Jujutsu Kaisen, um mangá de 2018 encerrado quase um ano e meio atrás e cujo anime ainda está longe de terminar.
Terceiro vemos Mystery to Iu Nakara, obra josei de mais de oito anos que não teve anime, mas um drama de enorme sucesso em 2022.
Quarto é Chainsaw Man, que o mangá recentemente terminou sua segunda parte. Originalmente de 2019, teve um filme de sucesso recentemente que cobriu até por volta do capítulo 60 do mangá, que tem mais de 200 capítulos no total. Nesse ritmo durará mais uma boa década.
E em quinto Frieren, cujo anime teve uma temporada de 10 episódios recentemente e anunciou a terceira temporada para o final de 2027. Mesmo com ela, o anime não teria adaptado 100 capítulos do mangá em mais de quatro anos.
Como podem ver, são todas IP de sucesso por vários anos e sem sinal de deixarem de ser referência de mercado quando um novo volume ou nova temporada de anime sair. Apenas no sexto lugar temos uma nova adaptação: Tamon-kun Ima Docchi?, mangá shoujo de 2021 que foi o maior sucesso novo da temporada de Janeiro 2026 ao trazer uma adaptação estelar para um gênero que não vinha recebendo muito foco dos grandes estúdios.
O anime praticamente dobrou as vendas até então da série, levando de pouco mais de um milhão de cópias em circulação para três milhões apenas nesses meses. Um anime é essencial para um sucesso em massa no mundo moderno e mesmo assim a competição é cada vez mais difícil quando precisa disputar atenção e tempo com séries já estabelecidas. É uma mudança tanto cultural quanto econômica de como se, fundamentalmente, experencia anime e mangá.

REPERCUSSÕES E CONCLUSÃO
Esse artigo não é uma pesquisa científica. Eu não tenho fontes diretas que dizem que o público parou de ler novos mangás porque preferem assistir a anime e já tem seus favoritos, que duram cada vez mais como IP ativas. Mas juntando todos esses fatores e números discutidos ao longo do artigo, faço essa sugestão de ser um dos fatores principais.
Obviamente, não é a única explicação. Mudanças culturais são sempre movidas por diversos fatores que influenciam eras, gerações e comunidades diferentes.
Por um lado, mais séries terão adaptações completas em anime, comparado com o passado. Por outro, novatos terão uma barreira ainda maior para superar. One Piece não teve Dragon Ball sem abrir passagem, um espaço maior para novos mangás permite que sucessos alcancem voos maiores.
De certa forma, esse artigo vai CONTRA a narrativa de que os mangás modernos vendem pior por serem piores em si. Sem discutir gostos, mas é inegável que existem fatores culturais muito maiores para essa queda do que apenas: “tudo novo é ruim”. Se fosse o caso, o mercado de mangá não teria crescido com o digital — o que de fato aconteceu é que ele se dissipou por diversas obras, enquanto os fãs mais hardcore se prendem aos seus favoritos por mais tempo.
O que de fato pode preocupar as indústrias, tanto de anime quanto de mangá, é que esse foco em manter as mesmas obras em destaque por mais de década pode levar à estagnação da mídia, com menos fãs jovens se interessando por “obras que não são deles”. Jujutsu Kaisen retrata uma juventude da década de 2000 e 2010, será que os adolescentes de agora e depois terão tanto interesse com o passar dos anos?

O gráfico acima é o retrato de uma juventude que, cada vez mais, lê menos a Jump, principal revista shonen do mercado. A linha azul representa garotos e a vermelha garotas. A média de idade dos leitores da publicação é de 28 anos.
Se as criações modernas não dialogam com os mais jovens, eles inevitavelmente vão se afastar cada vez mais, ainda mais quando possuem outras opções de entretenimento, como games e streams. E esse fenômeno não se restrige ao mangá.
O Japão possui um número cada vez maior de fãs de anime, com mais de 75% da população assistindo anime! A pesquisa feita pela Dream Internet Co. entretanto revela que a parte da população que menos vê anime é a faixa etária dos 10 até 19 anos: 33.7% deles não assiste anime, a faixa dos 20 está em 20%, a dos 30 em 19%, dos 40 em 30% e a dos 50 em 24%.
Ou seja, o crescimento de anime como indústria parte mais do número cada vez maior de adultos acompanhando animação, já os adolescentes demonstram menos interesse. É uma bola de neve caso não seja contido como problema: anime e mangá precisam também renovar seu público para não decaírem no futuro, mas a manutenção de IPs antigas pode se tornar uma barreira se medidas não forem tomadas pelas empresas para também darem destaque a novos títulos.
Cada geração tem seus próprios interesses e dilemas que são moldados pelo mundo que vivem e a sociedade em constante mudança. A arte precisa sempre viver esse processo de renovação também para não estagnar. Isso não significa parar de apoiar seu anime preferido de longa data, mas a indústria precisa encontrar essa balança. Enquanto isso, números de vendas precisam ser compreendidos e discutidos com o contexto cultural e não só comparados diretamente com obras de 15, 20 anos de idade; um Madan no Ichi pode ser um grande sucesso vendendo 100 mil, embora fosse um número mediano para um grande shounen dos anos 2010.
Talvez o próprio sucesso de Tamon-kun possa mostrar caminhos novos. A indústria de anime tirou a prioridade dos shoujo nos anos 2000 e 2010, preferindo dar adaptações live action para esses mangás. Entretanto, a expansão global de anime e o interesse maior do público japonês por anime mostra que anime é uma grande opção para a demografia shoujo e que a indústria não estava explorando o suficiente. Tamon-kun não foi outro grande battle shonen para bater de frente com Jujutsu Kaisen e Frieren, mas atendeu a um público que tinha fome por mais obras. Variedade em grandes produções é uma opção para o futuro.
Anime e mangá não morrerão, mas as nossas discussões a respeito deles podem ficar mais interessantes quando não são apenas números jogados sem contexto. A forma com que a produção é feita e o público interage é completamente diferente agora do passado. São formas de arte vivas e em constante metamorfose.

