Antigamente, era muito comum um autor, após o seu primeiro sucesso, retornar à revista. Os exemplos são dezenas de autores: Akira Toriyama retornou à Weekly Shonen Jump após Dr. Slump. Togashi retornou após Yu Yu Hakusho. Masami Kurumada retornou após Ring ni Kakeru. Takeshi Obata retornou após Hikaru no Go.
Vários desses autores conseguiram lançar um segundo sucesso; outros, como é o caso dos autores de Hokuto no Ken, Captain Tsubasa, Shaman King e Rurouni Kenshin, não conseguiram mais lançar outro sucesso na revista. Outros conseguiram lançar mais um ou dois mangás de sucesso antes de decidir se aposentar ou mudar de revista. Desse modo, casos como Inoue, que mudavam imediatamente de revista após o primeiro sucesso, eram minoria.
Os autores só mudavam de revista após lançarem de uma a três novas obras depois do primeiro sucesso. E o motivo não era contratual, mas cultural. Os autores preferiam permanecer na Weekly Shonen Jump a mudar de revista, mesmo o ritmo de trabalho da Weekly Shonen Jump na época sendo muito mais pesado do que atualmente (Antigamente, havia menos assistentes e menos possibilidades de pausas na produção).
Hoje, percebemos que os autores que lançaram seu primeiro sucesso estão retornando com menor frequência do que no passado. O que antes era uma minoria, agora apresenta uma divisão de 50-50%. Entre 2018 e 2021, entre as obras que eram o primeiro sucesso de um autor, foram encerrados:
Gintama – Não retornou
PSI Kusuo Saiki – Não retornou
Shokugeki no Souma – Retornou
Hinomaru Zumou – Retornou
Haikyuu!! – Não retornou
Yuragi-Sou no Yuuna-San – Não retornou
Kimetsu no Yaiba – Não retornou
Yakusoku no Neverland – Não retornou
Boku-tachi wa Benkyou ga Dekinai – Retornou
Para compreendermos melhor os motivos dessa mudança, apresento quatro hipóteses frequentemente levantadas por especialistas e leitores da revista, que discutem continuamente por que os autores veteranos não estão retornando.
Hipótese 1 – Riqueza
Um dos argumentos mais utilizados é: “Ganharam tanto dinheiro e agora não têm mais motivação para lançar um mangá semanal”. Trata-se, na verdade, de uma argumentação válida, se considerarmos que esses artistas ingressaram na Weekly Shonen Jump também com o objetivo financeiro. A realidade é que os mangakás conseguem atualmente lucrar com suas obras muito mais do que lucravam nos anos oitenta e noventa.
Muitos desses autores podem nunca mais retornar ao trabalho e, ainda assim, teriam recursos suficientes para toda a vida.
Atores, diretores, pintores e quadrinistas normalmente não trabalham apenas por dinheiro. Após enriquecerem, acabam tendo maior liberdade artística para escolher quando e como lançar suas obras; porém, muitos deles, como os autores de Gintama, PSI Kusuo Saiki, Nisekoi, Kimetsu no Yaiba e Haikyuu!!, simplesmente não voltaram a publicar novos mangás. Seja de forma quinzenal, mensal, irregular ou independente, não retornaram.
Todos possuem certo grau de liberdade para escolher onde publicar, mas ainda assim estão há mais de seis anos – alguns há mais de dez – sem lançar novas obras. Desse modo, ainda que o fator financeiro tenha influência, é improvável que seja a única causa.
Hipótese 2 – Medo do fracasso
Outro ponto levantado é que atualmente os autores têm mais receio do fracasso por causa das redes sociais. Se antigamente lançar um fracasso representava uma pequena mancha na carreira de um autor veterano, atualmente, com a internet, pode se tornar uma grande marca negativa. Todos comentam sobre “Samurai 8”, de Masashi Kishimoto, autor de Naruto, mas poucos lembram de Gun Blaze West, fracasso do autor de Rurouni Kenshin.
A Weekly Shonen Jump sempre foi uma revista desafiadora para veteranos, e são inúmeros os casos de autores que lançaram fracassos após um sucesso. Internamente, o “fracasso comercial” não é visto como algo vergonhoso, mas sim como parte natural do sistema da revista. Entretanto, para o público moderno, a relação é distinta: há uma tendência de criação de memes e zombaria direcionada a obras abaixo do esperado.
A situação se torna ainda mais complexa porque é difícil escapar desses comentários. Diferentemente do passado, quando o autor raramente tinha acesso direto à recepção do público, atualmente, ao utilizar a internet, há grande probabilidade de se deparar com críticas à sua nova obra.
A relação entre autor e público mudou e, para alguns, isso resultou em maior receio do fracasso, levando-os a demorar mais antes de lançar um novo mangá.
Hipótese 3 – Mudança cultural em relação ao trabalho
Em minha visão, a principal razão é uma mudança cultural no trabalho entre as novas gerações japonesas. Como explicado na revista japonesa “Metrópolis”, as gerações Millennial e Gen Z apresentam comportamentos distintos em relação ao trabalho quando comparadas aos Baby Boomers. Fenômenos como quiet quitting, diminuição da lealdade às empresas e a busca por maior liberdade têm sido observados nos últimos anos.
Embora os japoneses tradicionalmente apresentem forte dedicação e lealdade ao trabalho, essa mudança, ainda que lenta e silenciosa, pode estar influenciando diretamente a percepção de necessidade de retorno à Weekly Shonen Jump. Se antes servir à revista era visto como uma obrigação moral, atualmente essa pressão parece estar diminuindo.
Paralelamente, o cuidado com a saúde mental e física tem ganhado relevância na cultura japonesa, como discutido no artigo “How Japanese Work-Life Balance Is Transforming in 2025”. Essa realidade é visível na Weekly Shonen Jump, onde editores buscam garantir melhores condições de trabalho. Eiichiro Oda, autor de One Piece, é incentivado a realizar pausas frequentes para evitar o “Karoshi” (morte por excesso de trabalho), e Kohei Horikoshi, autor de Boku no Hero Academia, também precisou reduzir a extensão de capítulos pelo mesmo motivo.
Essa mudança na relação com o trabalho pode estar levando muitos autores a não se sentirem compelidos a retornar à revista após o primeiro sucesso. Historicamente, autores deixavam a Weekly Shonen Jump mais tarde, raramente antes dos quarenta e cinco anos, ou após pelo menos duas ou três obras.
A Weekly Shonen Jump continua sendo uma das revistas com ritmo de trabalho mais intenso, o que pode levar autores ao esgotamento após uma serialização. Com a mudança cultural, é possível que muitos estejam priorizando sua saúde. Revistas como Weekly Young Jump e Weekly Shonen Sunday, com ritmos menos intensos, apresentam maior retorno de autores veteranos.
Hipótese 4 – Soma de fatores
A realidade é que nenhuma dessas hipóteses explica o fenômeno isoladamente. O mais provável é que o cenário atual seja resultado da combinação de diversos fatores: riqueza, medo do fracasso, mudanças culturais no trabalho e outros elementos secundários.
O resultado é uma revista que, cada vez mais, lança menos obras de autores veteranos e passa a depender principalmente de novos talentos. A Weekly Shonen Jump sempre priorizou autores iniciantes, mas desde 2024 observa-se uma redução preocupante de novas obras de veteranos. Resta observar, nos próximos anos, se essa tendência continuará ou será revertida.

