Passa mês, passa ano, e a Weekly Shonen Jump continua a sua tradição de ser uma máquina de cancelamentos. Dessa vez, o mangá que teve um encerramento precoce foi justamente Otr of the Flame, concluído com apenas 34 capítulos e 4 volumes.
É a segunda vez que o autor, Yuki Kawaguchi, passa por um cancelamento. O mangaká já havia visto a sua série anterior, Red Hood, ser cancelada por motivos bastante similares aos que levaram ao fim de Otr.
Nesta matéria, irei explicar a opinião dos japoneses sobre Otr of the Flame e detalhar os quatro principais motivos que levaram a obra a ser cancelada com menos de um ano de vida.
A ARTE “CONFUSA”
Um dos elementos mais criticados pelo público japonês em relação a Otr foi justamente a sua arte “confusa”. Os primeiros capítulos apresentavam um excesso de diálogos, balões e quadros, o que tornava a leitura extremamente pesada, retirando a leveza que um mangá shōnen muitas vezes precisa ter.
Sim, existem casos de mangás shōnen que são bem “pesados” de se ler. Contudo, em sua grande maioria, tratam-se de obras já bem estabelecidas no mercado. São poucas as séries que conseguem sobreviver ao cancelamento apresentando páginas carregadas de informações visuais – texto, cenários e quadros – desde o início.
A partir dos capítulos 8 a 10, o autor começou justamente a reduzir a quantidade de informações nas páginas, alcançando uma leitura que os japoneses consideraram bem mais “leve” e interessante. Entretanto, a grande maioria do público da Weekly Shonen Jump, que já tem outros 19 mangás para ler na revista, tende a abandonar uma nova série ainda nos seus primeiros cinco ou sete capítulos e, mesmo com uma melhora posterior, raramente retorna a consumi-la.
A arte de Otr praticamente condenou a série ao fracasso, assim como já havia acontecido com Red Hood, a obra anterior do autor.
PROTAGONISTA SEM GRAÇA
Outra grande crítica recorrente em fóruns como o Jump Matome é direcionada à personalidade do protagonista. Mesmo possuindo um poder e um design interessantes, seu modo de agir era, de modo geral, considerado muito sem “sal”.
Ele não despertava risadas nem empatia no público japonês; pelo contrário, causava apenas indiferença. E são raríssimos — raríssimos mesmo — os battle shōnen que conseguem sobreviver sem que o protagonista esteja entre os três personagens mais amados da série.
ARCO DE TREINAMENTO
Ainda nos primeiros sete capítulos, correspondentes ao primeiro volume, quando o público ainda estava conhecendo o protagonista e se ambientando ao mundo da obra, Otr of the Flame iniciou um arco de treinamento.
Um dos momentos mais odiados pelo público japonês em Red Hood havia sido justamente o arco de treinamento. Ainda assim, o autor decidiu trazer esse tipo de arco para Otr of the Flame de forma ainda mais precoce. O resultado não foi diferente: o arco de treinamento se tornou um dos pontos em que mais leitores abandonaram a série.
Os japoneses consideraram o arco extremamente chato e expositivo, e, como o protagonista já não era carismático, muitos simplesmente optaram por pular a série assim que os capítulos apareciam nas páginas da Weekly Shonen Jump. Foi justamente nesse arco que a obra saiu do status de “possibilidade de sucesso” para “fracasso”, tornando-se um verdadeiro zumbi nas TOCs.
VENDAS
Com todos esses elementos assombrando a série desde o primeiro volume, Otr apresentou vendas insuficientes, comercializando menos de 5 mil cópias em seu primeiro volume, um número considerado baixo para os padrões da Weekly Shonen Jump. O cancelamento passou a ser apenas uma questão de tempo.
Os editores, inicialmente, devido ao encerramento de Kill Blue, decidiram estender um pouco a vida da série, mas quase não a divulgaram, o que indica que tanto os votos na revista quanto as vendas estavam muito baixos. A sobrevivência de Otr era algo muito mais situacional do que fruto de um apoio real à obra.
Após alguns meses extras de publicação, período no qual o autor pôde ganhar mais experiência e melhorar o conteúdo da série, Otr of the Flame acabou sendo cancelado. Agora, Kawaguchi, que provavelmente receberá uma terceira chance na revista, deve levar consigo uma lição importante: seu próximo mangá precisa focar em uma leitura mais leve e em um protagonista carismático, para que o conteúdo apresentado consiga, de fato, convencer o público japonês.
O autor tem potencial, mas precisa entender melhor como agradar o público japonês.

