
Bem pouco lembrados pelo leitores de mangás, os editores são figuras centrais na engrenagem da indústria. Muito além de dar ordens ou sugerir ajustes, eles funcionam como mentores e gestores, acompanhando de perto o desenvolvimento de artistas que, muitas vezes, estão apenas começando sua trajetória. É um trabalho que mistura sensibilidade artística, rigor técnico e visão de mercado, e que pode determinar se uma ideia promissora se tornará um sucesso de vendas ou será esquecida nas gavetas de um velho apartamento.
Na prática, o editor assume papéis múltiplos, e nesta matéria iremos explicar para vocês as cinco principais funções de um editor de mangás!
Desenvolvimento dos Autores
Assim que um autor ingressa em um departamento editorial, recebe a supervisão de um editor, também chamado de “tantō”. A partir desse momento, o profissional será responsável por acompanhar o artista por um período de três a cinco anos – ao fim do ciclo, independentemente do sucesso da obra, o autor é transferido para outro editor.
Durante esse tempo, o editor não atua apenas como orientador criativo. Sua função é também a de guiar o crescimento do autor enquanto profissional de mangás. Segundo o editor Yu Saito, o primeiro desafio é identificar o estilo narrativo e visual que melhor se ajusta ao novato, para então direcioná-lo ao gênero mais adequado. Essa fase envolve testar diferentes ideias, superar bloqueios criativos e, sobretudo, produzir inúmeros one-shots.
Com esse processo, o editor passa a compreender os pontos fortes e fracos do autor, incentivando-o a explorar suas habilidades e, ao mesmo tempo, auxiliando-o a superar suas limitações. O amadurecimento de um mangaká é contínuo: começa no momento em que ele entra para a editora e segue até sua saída, sendo lapidado por diferentes profissionais ao longo da carreira. Ao mesmo tempo para o editor, quantos mais autores novatos conseguirem lançar sucessos sobre sua supervisão, maior é a sua chance de ser promovido para Líder de Equipe (na Shonen Jump são três), Senior Editor ou Editor-Chefe.
O Primeiro Leitor
O papel principal do editor, sem dúvida, é o de ser o “primeiro leitor da obra”. Embora pareça uma função simples, ela carrega enorme responsabilidade: cabe a ele identificar os defeitos de roteiro, ritmo ou narrativa e orientar o autor para que sejam corrigidos antes da publicação. O editor é, portanto, um primeiro leitor com a capacidade de alterar o rumo da obra, evitando que o público tenha uma experiência negativa.
Esse olhar crítico exige treinamento. O editor não analisa apenas o capítulo finalizado, mas sobretudo o name ou storyboard, a versão preliminar do capítulo ou do one-shot. Se já nesse estágio surgem problemas de quadrinização, clareza narrativa ou coerência de roteiro, é preciso intervir imediatamente para ajudar o autor a encontrar o caminho correto.
É nessas horas que brilha a capacidade do editor de identificar o potencial de novos talentos e, principalmente, de reconhecer histórias que, mesmo com problemas, têm grande potencial.
Elo entre Editora e Autor
O editor é também o elo mais próximo entre a editora e o mangaká. É ele quem representa o autor em reuniões editoriais — já que raramente o artista tem contato direto com o editor-chefe, exceto em situações específicas — e, ao mesmo tempo, defende os interesses da empresa. Essa dualidade exige profissionalismo: por mais próxima que seja a relação, o editor continua sendo um funcionário da casa e deve transmitir ao autor as diretrizes do departamento editorial.
Em muitas editoras, o editor também acumula a função de supervisionar adaptações e expansões da obra em outras mídias. Na Weekly Shonen Jump, porém, essa realidade mudou. Desde 2017, a revista conta com um departamento exclusivo para Expansão de Mídias, permitindo que os editores foquem quase exclusivamente no desenvolvimento criativo dos mangás.
Garantir a Qualidade da Produção
No livro All About Manga Business, uma anedota ilustra bem a função do editor: “Se para produzir bem um mangá o autor precisa comer onigiri todas as manhãs, cabe ao editor garantir que o onigiri esteja sempre à mesa”. Em outras palavras, é sua responsabilidade assegurar que o autor tenha todas as condições necessárias para entregar a obra semanalmente, quinzenalmente ou mensalmente.
Criar um ambiente livre de distrações e propício à concentração é fundamental. O não cumprimento de prazos não é visto apenas como falha do autor, mas também como responsabilidade do editor, que não conseguiu manter a qualidade do processo produtivo. É nesse contexto que surgem os chamados “editores carrascos”, conhecidos por pressionar autores além do necessário.
Contudo, essa realidade vem mudando. Revistas como a Weekly Shonen Jump têm buscado oferecer melhores condições a seus autores. O caso de Boku no Hero Academia é emblemático: a decisão editorial de permitir pausas e reduzir capítulos para 14 páginas foi tomada para preservar a saúde do autor. O mercado continua competitivo e exigente, mas tanto editoras quanto editores estão aprendendo a respeitar o ritmo de cada artista.
A Visão de Mercado
Por fim, o editor precisa ter uma visão apurada do mercado. É seu papel analisar números de vendas, acompanhar tendências, interpretar resultados de pesquisas de popularidade e transmitir essas informações ao autor. Assim, a obra pode ser ajustada para dialogar com o público-alvo em questão.
Nem todos os mangás nascem com a expectativa de se tornarem fenômenos de vendas, mas todos precisam conquistar uma base fiel de leitores. O maior desafio, no entanto, não é apenas transmitir conhecimento mercadológico, mas encontrar soluções para problemas de popularidade sem comprometer a identidade da série. Em alguns casos, mudanças drásticas são inevitáveis — como no caso de Yu-Gi-Oh!, que começou como um mangá sobre jogos variados e se transformou em uma série focada em cartas.
Ainda assim, é graças a essa visão estratégica dos editores que muitos dos maiores sucessos da indústria conseguiram florescer.