
Falar de cultura de anime e mangá é falar de eventos de anime. Um pilar cultural da indústria que existe desde o Japão até o Brasil, abrindo espaço para contato direto entre fãs e, muitas vezes, até artistas. Esse ano pude novamente cobrir o Anime Friends, o maior evento de anime do Brasil, e destacarei aqui algumas das atrações que mais chamaram minha atenção.
5 – Show dos Ultra
A franquia Ultraman é uma das mais icônicas e influentes da cultura pop japonesa. Séries como Evangelion e Dandadan são abertamente inspiradas nesse clássico dos tokusatsu, então ter a presença forte da franquia no Brasil foi uma surpresa positiva.
Com um palco próprio (Arena Ultra), apresentações diárias foram feitas de uma apresentação autêntica da franquia, como as feitas no Japão. Coreografias com dublês treinados e um roteiro divertido que apresenta Ultraman, Zero, Mebius, Blazar e Omega numa aventura — todos dublados por nomes de peso do Brasil, como Guilherme Briggs.
Mas não foi só isso. Havia também um restaurante da franquia, com lanches tematizados, e os heróis Ultra deram a cara em vários dos shows nesse ano. Participando das apresentações de artistas como MindaRyn e Hiroshi Kitadani. Fazendo assim a série Ultra uma das que mais ativamente se envolveu com o evento e o público brasileiro diretamente.
4 – Painel da História do Mangá Shoujo
Como alguém que lê bastante mangá e fala sobre praticamente todo dia, é inegável não sentir grandes lacunas no meu conhecimento histórico da mídia. Adoro um bom painel e esse foi excelente ao mergulhar a fundo na história da demografia, organizado por criadores brasileiros ainda por cima.
Que mangaka famosos como Osamu Tezuka e Shotaro Ishinomori já fizeram obras shoujo eu já sabia, mas a apresentação mostrou outros nomes muito ignorados quando se fala da história, principalmente o de várias autoras que definiram época e levaram a influenciar a indústria inteira em geral, alguns elementos como os olhos grandes e detalhados foram popularizados pelo shoujo.
Obviamente não vou poder detalhar tudo que foi falado, mas foi uma retrospectiva pelas décadas e as transformações que foram se dando. Além disso houve uma abordagem sobre a história da demografia no Brasil, com pesquisas sobre todos os títulos publicados no país e a porcentagem de demografia — o shoujo veio forte, decaiu na década passada e agora está num movimento crescente de novo. Muita coisa interessante ali.
3 – Shows Musicais
Esse aqui é um tanto óbvio, os shows são sempre algumas das atrações principais de eventos assim. Com nomes locais e internacionais, existia uma gama de opções que iam dos hits nostálgicos, como as canções de Inuyasha do Do As Infinity, para algumas obras modernas, como as músicas do hit Tensura por Mindaryn e Stereo Dive Foundation.
A volta do Super Friends Spirits também permitiu essa troca cultural de anisongs em japonês e português, já que é um palco que mistura os artistas. Ir do clássico Sousei no Aquarion para o tema brasileiro de Shurato é uma combinação inesperada e cativante.
De todas as apresentações dou destaque para volta de Hiroshi Kitadani ao Brasil, depois de mais de 10 anos. O icônico cantor fez questão de cantar vários de seus hits em One Piece, além de covers de outras músicas da franquia. We Go, Over The Top, Shinjidai, One Day, We Are. Moveu o público.
2 – Palestra de Yukari Fujimoto
Essa até pensei em falar “painel” de novo, mas o tom foi bem mais próximo de uma palestra acadêmica, daquelas que você assiste numa faculdade. Não é por acaso já que Yukari Fujimoto é uma pesquisadora acadêmica de mangá, focando principalmente nas demografias shoujo e Boys Love.
Pude participar de uma coletiva com ela antes e algumas das perguntas e respostas me intrigaram. Ao ser questionada sobre a talvez redução do foco no shoujo em premiações, ela pareceu não se importar, já que inegavelmente existem muito mais obras shoujo hoje em dia que no passado. Além disso ao ser perguntada sobre a figura das mulheres em mangá shounen e se haveria algum avanço na escrita delas ali, Fujimoto respondeu que até pode existir um processo gradual, mas que as demografias que ainda melhor passam histórias femininas são as joseimuke (para mulheres). Parece óbvio, mas às vezes a perspectiva ocidental foca demais nas obras de mais sucesso internacional sem perceber a vastidão da indústria.
Já depois indo ao painel sobre a história do Boys Love, a professora explicou a história do gênero, como ele foi influenciado pelos doujin baseados em outras obras (como algumas da Shonen Jump) e como isso acarretou numa indústria própria. Além disso explicou também como as mudanças culturais ao longo das décadas afetou como o mangá é escrito, passando de histórias de devaneios amorosos para romances estáveis. Adoraria ter mais eventos bem estudados assim em futuros AF.
1 – Cosplays
Alguns podem ler isso e achar banal, mas sinceramente, achei muito interessante ver os cosplays esse ano pela clara mudança do volume de séries representadas por cosplays em relação ao ano passado. Enquanto havia muito Jujutsu e Mashle em 2024, em 2025 eu diria (sem fazer pesquisa, mas pelo olho) que as séries com mais cosplay eram Dandadan, Frieren e Kusuriya no Hitorigoto! Uma mudança brusca, mas que mostra a popularidade dessas três séries no último ano com o público brasileiro.
Ao querer falar de criações daqui, não posso deixar de citar a Artists Alley, aonde criadores locais vendem seus produtos. Aliás, tudo que comprei foi lá, a relação de custo e qualidade é excelente. Mas dessa vez resolvi realmente focar nos cosplay aqui como representante local.
Assistindo um concurso de cosplay com duas categorias diferentes, de adultos e crianças, também dava para perceber uma mudança de gerações. Metade ou mais dos cosplay das crianças eram de Kimetsu no Yaiba, enquanto a série não teve tantas fantasias na categoria mais velha. É visível o tanto que o anime é um hit entre os mais novos.
Na hora do show vi alguns pais com seus filhos cantando e dançando com as músicas de Naruto, todos parecendo na faixa dos seus 30 anos. Isso me faz pensar como essa “minha” geração já envelheceu. Antigamente eu via as músicas de Saint Seiya em shows do tipo como uma forma de apelar à geração mais velha em relação a minha, mas agora músicas de séries como Death Note já tem um apelo para um público nostálgico.
Não que esses clássicos não façam fãs novos, mas quem sabe daqui 15 anos num Anime Friends futuro essas crianças de hoje estejam ouvindo as clássicas canções de Kimetsu no Yaiba. Como a Comiket tem no Japão, já dá para ver que os eventos brasileiros já tem seu legado.